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Julián Carrón realiza encontro sobre vocação com colegiais de CL
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Escolher viver
Talvez esta seja a primeira pergunta importante que um jovem faz na vida: “Fazer
universidade? Que curso?”. Traduzindo: “O que serei quando adulto?”. Para serem
ajudados, novecentos vestibulandos se encontraram com Julián Carrón em Roma. Um
amigo que os desafiou a serem homens, e a acertar as contas com outra pergunta,
mais radical: “Para que serve a minha vida?”
Por Silvia Guidi
“Há uma batalha em ato.” Impossível fugir deste desafio, porque até não escolher
é, de fato, uma escolha, a vida não fica nos esperando. “Bom dia a todos. Vocês
estão acordados?”, pergunta Julián Carrón, começando a falar. Quase todos estão
acordados, neste início de manhã de domingo, na aula magna da Urbaniana, não
grande o bastante para comportar todos (havia outras três salas conectadas via
vídeo), mas cômoda o suficiente para se poder olhar no rosto, na escadaria que
se estende sobre um dos panoramas mais belos de Roma. Todos chegaram antes da
oração do Regina Coeli na praça com o Papa, depois de viagens longas e
desconfortáveis. Mas todos silenciaram os celulares e pegaram papel e caneta
para fazer anotações, escutando quem já trilhou um pedaço do caminho e deseja
acompanhá-los.
Não é fácil se orientar, reconhecer os critérios com os quais escolher uma
faculdade ou um trabalho, decidir que forma tomará materialmente o próprio
cotidiano quando forem “grandes”. “Vou fazer Direito”, pensam Maddalena e
Elisabetta. Emanuele, que como as duas jovens, estuda em um liceu clássico em
Milão, já excluiu de suas opções seguir sua paixão pela música. Frutos de
escolhas ponderadas, provavelmente. Perspectivas que depois, no fim do dia,
mudarão. “Admito que entendi bem poucas coisas”, diz Elisabetta, “mas depois do
encontro, coloquei tudo em discussão novamente. Porque foram introduzidos
critérios diferentes dos meus. Que não dizem respeito à universidade, mas a toda
a vida. Uma medida diferente daquela do mundo. E que leva em conta tudo aquilo
que sou e desejo. É como se tivesse aumentado a pretensão”.
A maneira mais concreta para ajudar os jovens a não se deixarem esmagar pelas
expectativas, próprias e dos outros, é lembrá-los da “majestade da vida”, para
usar uma expressão cara a Testori, a grandeza de se colocar em jogo não apenas
antes da universidade, mas em cada momento da existência. Assim, o canto inicial
escolhido por Carrón e Franco Nembrini, responsável dos Colegiais, foi Parsifal,
de Claudio Chieffo: “Parsifal não pare / e deixe que seja sempre / a voz única
do Ideal / que lhe indique o caminho”.
“Não parar”, não é fácil como parece. Ninguém sonha em embrenhar a própria vida
“na corte das almas pequenas / que repetem os gestos e não sabem entender”, mas
a batalha é tão invisível quanto decisiva. Perseguir o cômodo, deixar-se modelar
pela mentalidade do mundo, mas também seguir acriticamente os conselhos de
muitos educadores intelectuais, normalmente sinceramente convencidos de quererem
o bem dos jovens, mas não treinados a perceber o respiro vasto da totalidade.
Tudo isso, no tempo, de modo quase imperceptível, encolhe a vida, bloqueia o
crescimento da personalidade, entorpece o humano em um mundo de substituições
fáceis e (pequenas) felicidades, até que alguma coisa (uma canção, um rosto, o
contragolpe de uma grande dor, ou de um grande amor) lembra ao coração sua
grandeza originária.
NEXO COM O TODO. O ideal nos convida a lutar contra esta redução sempre a
espreita. O drama, neste período da vida, é que a própria vida obriga a
escolher. Mas a primeira questão não é nem mesmo o que escolher. Primeiro, vem a
questão: para que vale a pena viver? “‘O homem caminha quando sabe bem onde ir’.
Dom Giussani nos ensina: ‘Só na clareza e na segurança o homem encontra energia
para a ação’.” “Por que eu existo? Para que serve o meu eu?”, perguntava-se,
ainda, Dom Giussani. “A primeiríssima decisão é levar a sério esta pergunta”,
comenta Carrón. Bloqueá-la significa matar a natureza do homem, bloquear o
ímpeto da vida. “Imaginemos que um pedaço de qualquer coisa, por exemplo, a roda
de um carro, se perguntasse: ‘Qual é a minha utilidade? O que estou fazendo
aqui?’. Ela só poderia entender isso dentro de um relacionamento, no seu nexo
com todo o carro, porque cada pedaço do real pode ser entendido no seu nexo com
o todo.” O que sou chamado a fazer? Descobrir de que maneira posso ser útil ao
mundo é o caminho para a minha felicidade, minha realização. Não perco, mas
conquisto a mim mesmo. O serviço ao mundo é a realização de si, mesmo se a
mentalidade na qual estamos imersos nos sugere o contrário. “Entender isso é
fundamental, porque muitos acham que a única modalidade de realizar a si mesmos
seja se auto-afirmar e, por isso, depois, acabam sozinhos em um esconderijo
perguntando-se que sentido tem a sua vida”, continua Carrón. O esconderijo pode
ser também um lugar ao sol, confortável e de sucesso. É a mesma, velha
armadilha, o sonho de se tornar mais parecido com outros que têm alguma redução
da medida do homem, quer se trate de um rito esotérico para iniciados ou de uma
conta bancária com muitos zeros.
“Parsifal, é preciso lutar / é preciso procurar onde está / o Ponto Firme entre
as ondas do mar / esta ilha existe...” Parsifal precisa lutar para lembrar a
grandeza da sua vida e seguir o chamado que nasce das coisas e das pessoas que
encontra. Um chamado que, escrito com letra maiúscula, torna-se sinônimo de
vocação. E se exprime em uma pergunta, radical: “Como eu”, com tudo aquilo que
sou, “posso servir mais ao reino de Deus?”.
Para responder, Carrón retoma os três critérios indicados por Dom Giussani.
Primeiro: as inclinações e os dotes naturais. Ou “capacidades, desejos,
ímpetos, um determinado temperamento. São dons preciosos que devemos colocar a
serviço de algo outro”. Sem censurá-los, porque o maior erro que se pode cometer
é a “desconfiança em relação às próprias inclinações, ao gosto, ao prazer
enquanto algo autêntico, algo natural”. O Mistério nos chama através disso,
dentro da carne. “Plasma-o dentro de nossas entranhas para nos dizer a quê nos
chama, porque foi Ele que nos fez assim.” Por isso, o segundo critério são “as
circunstâncias inevitáveis”: o fator “mais amigo”, porque nos indica de
maneira mais clara o caminho a seguir. Sem ficarmos bloqueados em um lamento,
enclausurados em uma expectativa particular – como querer ir às Olimpíadas
depois de um acidente que lhe deixou aleijado – ou fechados no sonho de alcançar
um objetivo, mas olhando com atenção e curiosidade “como o Senhor fará para me
conduzir à felicidade através da minha deficiência”. Terceiro: a necessidade
social. “Do mundo e da comunidade cristã.”
É usando de tudo isso que podemos acertar as contas com “as duas questões
fundamentais a serem decididas”: a vocação como estado de vida e a escolha da
profissão. Levando em conta um fato: a vocação “não pode ser uma ‘criação’
nossa”. É um Outro que a decide. Mas é “algo que se reconhece”, um
reconhecimento. “Precisamos reconhecer aquilo para o qual fomos destinados.”
Somos livres para aderir ou não, para nos educarmos a uma atenção constante aos
sinais da realidade ou para nos deixar levar pela anestesia cheia de coisas a
fazer na qual todos vivem. A concepção moderna da vida está muito distante
disso, todos os desejos “grandes”, tudo aquilo que tem o respiro da totalidade é
visto como um exagero, um fanatismo, um extremismo perigoso.
COMPANHEIRO DE CAMINHO. “E, ao contrário, aquilo que nos dizemos é algo
que dá respiro”, conta Maddalena. “Chegamos a pensar que é melhor fazer Medicina
porque não há necessidade de advogados. Mas porque olhamos realmente o que conta
para você na vida.” “Eu também voltei a considerar a música como uma
possibilidade”, diz Emanuele. “Tinha decidido que, no fundo, não era importante.
Porém, foi como se Carrón me dissesse: ‘Para mim, aquela sua paixão é
importante’.”. “Então, estávamos diante de alguém que nos levava em conta mais
do que nós mesmos”, comenta Maddalena. Por outro lado, padre Carrón prometeu, na
sua mensagem no Tríduo Pascal dos Colegiais: “Sou companheiro de vocês nesse
caminho”. Um abraço de alguém que, diz Maddalena, “é claro que nos quer bem”. Os
novecentos jovens tinham isso nos olhos naquela manhã. Os mesmos que, pouco
depois se dirigiam, alegres, para a Praça São Pedro para o encontro com o Papa.
E para uma vida de “gente grande”.
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