Nas fontes da gratuidade
Página Um -
Passos
abril/2008
A longa marcha da maturidade
Notas de
uma palestra de Luigi Giussani na “Escola de Quadros” de Comunhão e Libertação.
Milão, 27 de fevereiro de 1972
1. O que buscamos
O momento
de nossa história que devemos encarar hoje é aquele em que a experiência do
Movimento sofreu seu mais forte abalo: 1968.
Talvez não seja
inútil lembrar que, na vida daqueles que Deus chama, Ele não permite que
aconteça coisa alguma que não seja para a maturidade da pessoa, para seu
amadurecimento. Isso vale, em primeiro lugar, para a vida de cada um de nós,
mas, em última análise e de maneira mais profunda, vale também para a vida de
sua Igreja. Logo, vale igualmente para a vida de qualquer comunidade, receba ela
o nome de família ou de comunidade eclesial, em sentido mais amplo. Deus jamais
permite que aconteça qualquer coisa que não seja para a nossa maturidade, para
um amadurecimento nosso. Aliás, a verdade da fé é demonstrada justamente pela
capacidade que a pessoa ou a realidade eclesial (família, comunidade, paróquia,
Igreja em geral) tem de valorizar, como caminho de amadurecimento, as coisas que
surgem como objeção, perseguição ou dificuldade de qualquer tipo; a verdade da
fé é demonstrada pela capacidade que a pessoa ou a realidade eclesial tem de
tornar essa coisa instrumento e ocasião para amadurecer. Não é para menos que,
ao falar do fim do mundo – mas o fim do mundo é qualquer pequena mudança de
direção da história –, o Senhor diz que “o mal deixará explícita toda a sua
influência, aparecerão muitos pseudocristos e pseudoprofetas, e então a caridade
de muitos esfriará”.
Poderíamos
dizer que este é o sintoma da verdade, da autenticidade da nossa fé: se o que
realmente está em primeiro plano é a fé ou, pelo contrário, um outro tipo de
preocupação; se realmente depositamos toda a nossa esperança no fato de Cristo
ou, pelo contrário, esperamos dele apenas o que já decidimos esperar, e então,
em última análise, ele se torna somente ensejo e ponto de apoio para os nossos
projetos ou os nossos programas.
A lei do
desenvolvimento espiritual, a lei dinâmica da vida da nossa fé, a que acabamos
de nos referir, é realmente de extrema importância para os indivíduos, tanto
quanto para a coletividade; é de extrema importância para a coletividade, tanto
quanto para os indivíduos. Não deixa de ser verdade, sempre, que tudo coopera
para o bem daqueles que entendem Deus e O desejam; e também não deixa de ser
verdade, sempre, que no momento da dificuldade é que fica claro se você deseja a
Deus ou não. Esse é o eterno dilema que se apresenta na base de qualquer posição
assumida pelo homem, de qualquer ação, qualquer expressão do homem; essa é a
alternativa que denuncia a ambigüidade que sempre pode existir na raiz de
qualquer manifestação humana.
O mundo é uma
grande ambigüidade para o espírito que não tem clareza. No espírito do homem, a
tentação da ambigüidade está acima de qualquer outra coisa. Não é para menos que
Cristo falava em parábolas, “para que olhando não vejam e ouvindo não
compreendam”.
E o mundo inteiro é como uma grande parábola: ele demonstra Deus, como uma
parábola demonstra o valor a que quer chamar a atenção, e “quem tem ouvidos para
ouvir, ouça!”.
Diante da parábola, aparece o pensamento secreto do coração. Diante da dúvida,
do problema, do questionamento, da dificuldade, fica evidente aquilo que o homem
ama.
Mas essa lei
estrutural da criatura, da relação entre a criatura e seu criador (a própria
existência de Deus só é reconhecida, entendida, afirmada quando se elimina essa
ambigüidade), vale para qualquer tipo de experiência autenticamente religiosa.
Logo, vale também para a vida cristã e para a vida da Igreja: diante do
obstáculo, fica claro aquilo que você deseja. No momento da dificuldade, dá para
ver se, quando você vivia a comunhão, construía a comunidade, trabalhava noite e
dia pela comunidade, o que você desejava era Cristo ou você mesmo, se estava
voltado para Cristo ou para você mesmo. Nesse momento, a objeção aparece e pode
influenciá-lo, dizendo: “Deixa tudo isso pra lá”. Ou pode influenciá-lo, fazendo
você dizer: “Que foi tudo isso que eles me disseram até agora? Eles só me
enganaram!”. Ou: “Eles não me entendem, eles não me valorizam”. Só diante da
objeção, na hora em que somos postos à prova, é que dá para ver se a postura do
nosso espírito é ouro ou “palha”,
para usar uma imagem de São Paulo.
No início das
coisas que teremos de lembrar hoje, eu não podia deixar de chamar a atenção para
essa norma espiritual, esse critério espiritual inconfundível, preciso. Além do
mais, essa é mais uma imitação de Cristo que se impõe a nós, pois foi por Sua
morte, por Sua agonia e Sua morte, que ficou claro que Cristo era realmente o
Filho do Pai: “Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”,
ou “consummatum est”,
obedeci até o fim. Na hora em que somos postos à prova é que fica claro o que
nós queremos, se queremos Cristo ou visamos a nós mesmos quando damos todo o
nosso tempo, a nossa energia, o nosso coração, o nosso cuidado ao Movimento,
seja qual for a maneira de fazer isso. Se eu insisto nisso, é porque realmente
esse é o ponto que devemos sempre ter em mente, não importa que desempenhemos
funções de secretaria, funções “braçais” mais simples ou funções mais elevadas.
Se nós não o tivermos em mente, em primeiro lugar não conseguiremos ficar
minimamente contritos (só nesse nível pode haver contrição) e, em segundo lugar,
quando tivermos uma dificuldade, nós mesmos é que decidiremos se essa
dificuldade é suficiente ou não para nos fazer cair fora ou continuar aqui. Dá
para entender? Nós achamos que está nas nossas mãos o critério último para
decidir se aquilo que fazemos é correto ou não!
No exato momento
em que somos postos à prova, diante das dificuldades, quando não vemos mais
gosto naquilo que fazemos ou aquilo realmente não nos dá mais gosto, é que dá
para ver, é que fica evidente se aquilo que buscamos é Cristo ou o nosso
amor-próprio, a afirmação de nós mesmos, seja qual for a forma que isso assuma,
de qualquer ponto de vista. É nesse instante que o fascínio mundano, com seu
aspecto diabólico, sua mentira, mascarada da maneira mais atraente, aparece à
nossa frente e gera uma alternativa: “É melhor você fazer outra coisa. O mais
certo é fazer uma outra coisa”. Então, como diz a canção de Claudio Chieffo
sobre Judas,
nós sentimos que fomos traídos por aquilo pelo qual nos tínhamos sacrificado. Só
que nós não nos tínhamos sacrificado por aquilo. Nós nos tínhamos sacrificado
por nós mesmos, pelo nosso amor-próprio. Seja lá como for, só a luz da
observação que acabo de fazer pode nos permitir interpretar com exatidão tudo o
que aconteceu.
2. Os fatores do que aconteceu
Os pontos
em que vou tocar agora têm caráter apenas exemplificativo, propositivo; é uma
análise que, com a colaboração de vocês, poderia até ser enriquecida. A primeira
coisa que vou dizer – como, aliás, está escrito na folha que vocês receberam – é
quais são os fatores mais impressionantes e mais claros que saltam aos nossos
olhos, depois de anos, quando lembramos esse fenômeno do passado, sobretudo do
ponto de vista dos desdobramentos que ele teve. Acho importante repetir os
fatores que estão assinalados na folha.
a) O
nascimento do fenômeno da contestação estudantil nos atingiu, em primeiro lugar,
pela exigência fundamental de uma autenticidade na maneira de viver as coisas,
em sentido geral, que nos chegava por meio dele. O primeiro fator que nos
atingiu foi a exigência fundamental de uma maior autenticidade de vida, de vida
pública. Insisto em sublinhar isto: na vida pública, na vida da sociedade. Isso
só se podia constatar porque o que levava a uma manifestação como essa e a uma
exigência como essa era uma irrequietude. A irrequietude humana é sempre
suscitada por uma exigência de autenticidade, uma vez que a insatisfação e o
desequilíbrio são sempre gerados por uma mentira que de alguma forma se aninha
na atitude que se vive. Essa urgência de autenticidade na vida social, nas
formas da vida em sociedade, só podia ser determinada por uma irrequietude, que
implicava a busca de uma autenticidade também na vida da pessoa, uma
autenticidade pessoal.
A meu ver, o
esforço por uma transformação da sociedade como um todo – para que sua face seja
mais autêntica, mais humana – é uma coisa que não pode ser esquecida: precisamos
ter isso sempre em mente, como o desafio que Deus faz à nossa inércia e à nossa
preguiça por intermédio do mundo, justamente. Sempre foi assim na história da
Igreja: o esforço mundano – que chama a atenção para uma urgência ou um aspecto
da vida, mesmo quando o faz de maneira facciosa e parcial – provoca, dentro do
povo cristão autêntico, a retomada da consciência, a crise e a retomada da
consciência. Deus se serve de todas as coisas que acontecem. Lembrem-se da
premissa: tudo o que acontece é permitido por Deus para o amadurecimento
daqueles que Ele escolheu. Assim, num determinado momento da nossa caminhada,
nós podemos encontrar essa autenticidade à beira do caminho, naquelas pessoas
que não tiveram a graça que nós tivemos. Essa é a maneira como Deus nos pune,
pune o nosso amor-próprio. Mas Deus castiga aqueles que ama para purificá-los –
diz também a Escritura –: “Eu repreendo os que eu amo”.
b)
Segundo fator, um fator que é claro e exemplar na lembrança que temos do que
aconteceu: para obter a transformação da sociedade ou para afirmar a
autenticidade em vez do equívoco, da mentira, da máscara com que as pessoas
viviam, a proposta que se apresentava, fundamental e globalmente, era a da
necessidade de subversão do passado, de inimizade com o passado, de hostilidade
perante o passado, de negação do passado, ou pelo menos, o que dá no mesmo,
esquecimento do passado e desinteresse por ele. O esquecimento do passado é
sempre uma hostilidade para com ele, pois o passado, por ser o que é, instiga,
se propõe: ele não valeria nada, se não se propusesse ao presente. O passado só
é o que é, para quem vive no presente, única e exclusivamente na medida em que
se propõe, em que insiste em bater à porta, pois é do passado que nós nascemos
(é por isso que esquecer de nossa mãe é, potencialmente, uma hostilidade para
com ela).
É claro que
isso não tira nada da necessidade de surgirem formulações novas; mas o que
delineia para nós o rosto de tudo o que aconteceu, sobretudo do ponto de vista
dos desdobramentos internos, é a negação do passado, a hostilidade para com o
passado. A subversão, a revolução como subversão, o conceito de revolução
mundano coincide sempre com a guerra contra o passado.
Fica
evidente que há uma ingenuidade fundamental na raiz de um comportamento como
esse, desse tipo de atitude: é a ingenuidade fundamental de Adão, que acreditou
que comendo do fruto proibido pudesse obter todo o conhecimento do bem e do mal.
Em resumo, é a minha ingenuidade ao me considerar “medida de todas as coisas”, é
a ingenuidade do homem que diz: “Deixa comigo, que agora eu vou consertar tudo”.
É a ingenuidade do homem como medida de todas as coisas, a ingenuidade do
amor-próprio. Do ponto de vista técnico, é uma ingenuidade. Do ponto de vista
moral, é crime, mentira, atitude diabólica, para lembrar mais uma vez das
primeiras páginas da Bíblia.
Que
melancolia! Que melancolia nós não demoramos a experimentar naquela época, e
como foi ficando mais séria com o passar dos anos! Diante da vontade de mudar a
sociedade, como nós não demoramos nada para experimentar a melancolia! Muitos
fizeram essa experiência, pelo menos entre nós, ou seja, pessoas que não
compartilharam de imediato a questão. Ante a perspectiva de mudança da
sociedade, uma perplexidade se instalou dentro de nós, porque fomos
surpreendidos por uma pressão e uma vontade de mudança dentro de um tipo de
experiência que não tinha consciência daqueles problemas, que não tinha
amadurecido em relação àqueles problemas, que estava num nível anterior àqueles
problemas, um nível substancial, mas que, diante da urgência de uma flexão
cultural, estava ainda embaraçado, inconsciente (é por meio dos encontros e dos
conflitos que a semente mostra todo o seu potencial). A questão é que era uma
perplexidade tímida, morta de curiosidade e, no fundo, ainda condescendente, de
forma que qualquer julgamento era feito com muito cuidado (afinal, o que se
podia dizer contra o esforço para mudar?). Seja como for, era uma grande
perplexidade, uma névoa de perplexidade, que no fundo condescendia com o que
estava acontecendo. Mas não demorou para sermos tomados pela melancolia, quando,
diante de uma urgência tão grande de autenticidade, vimos, por exemplo, o tipo
de relação que era proclamada, e que já se tornava óbvia, entre rapazes e moças,
pois esse, certamente – parece-me que até para os etnólogos isso é verdade –, é
um dos aspectos típicos que servem para avaliar a moralidade de uma população ou
de uma época. Realmente, é um dos aspectos mais sintomáticos, quando queremos
visualizar a estatura moral, a dignidade ou a maturidade moral de uma pessoa ou
de um contexto. É do juízo, é da concepção que estou falando, naturalmente.
Enquanto concepção, a autenticidade que se buscava gerava a libertinagem, dava
origem a um conceito de “amor livre” que não tem nada a invejar dos momentos
mais baixos e corruptos da sociedade burguesa, mas que era, enfim, fruto da
hostilidade para com o passado, da reação ao passado, do “agora deixa comigo”.
Assim, aquilo que eu experimento, aquilo que eu sinto, essa é que era a
originalidade, a pureza original, a era de ouro da humanidade!
3. A perda do rumo
Foram esses
– no meu modo de ver – os dois fatores mais impressionantes que se destacaram,
ao olharmos para a situação daquela época. Como foi que o Movimento, o aspecto
do Movimento que predominava naquele tempo, que eram Gioventù Studentesca (GS,
“Juventude Estudantil”) e Gioventù Lavoratrice (GL, “Juventude Trabalhadora”),
reagiu àquilo?
Houve uma
perda de rumo – a que já me referi antes –, uma perda de rumo característica de
alguém que, percorrendo seu caminho e vivendo uma experiência que lhe é
fundamental, é surpreendido por acontecimentos que exigem um nível de flexão, de
tradução, de interpretação e de decisão ao qual a sua experiência ainda não
chegou, ao qual a sua trajetória, o seu caminho, o seu itinerário ainda não
chegou. É como se, numa cidade sitiada, as pessoas se estivessem preparando para
a guerra, armando a defesa, aprontando as trincheiras, etc., e o inimigo
aparecesse três dias antes do previsto. É impossível, numa situação como essa –
a não ser quando as idéias são claríssimas, bem amadurecidas, a não ser quando
os generais são extremamente bem preparados –, que a cidade não seja tomada pelo
pânico.
Houve uma
perda de rumo: é com essa expressão benevolente que pretendemos dar os motivos
daquilo que aconteceu; uma perda de rumo generalizada. A perda de rumo não foi
uma característica de determinada parte das pessoas apenas, mas de todo o mundo.
Insisto nessa expressão, que atenua com benevolência, teima em dar uma
explicação benevolente para o que aconteceu.
Por um
lado, essa perda de rumo é superada de maneira decidida. De que jeito? As
pessoas se deixam levar e entusiasmar pelo aspecto verdadeiro da questão. Por
outro lado, a perda de rumo paralisa. O que é que torna ainda mais rígida a
perda de rumo? É perceber a forma, a flexão, o método errado com que o
acontecimento se apresenta, na sua pretensão de mudar as coisas. Que significa
método errado? Talvez seja cedo demais para dizer isso; digamos, então, que
fosse um método que não estava de acordo com aquilo a que tínhamos sido
educados, um método, uma flexão das coisas que não estava de acordo com a nossa
história.
No primeiro
caso, a perda de rumo é superada repentinamente, por uma energia e uma vontade
de intervir na situação, de operar, de agir, de – usemos o termo cristão, no seu
aspecto sacrílego – “encarnar-se” (para um cristão, é um sacrilégio usar o mundo
de uma forma que não esteja de acordo com o mistério de Cristo). A perda de rumo
é superada de repente, na forma de uma vontade de intervir, que é solicitada
pela positividade imanente do fenômeno, pelo desejo de autenticidade que se
proclama, pela acusação de falta de autenticidade, etc.
Mas nós não
podemos nos desligar de repente de toda uma história à qual aderimos sem
reservas, livremente – seja o que for que venham a dizer depois, e digam, disso
–, uma história à qual aderimos de todo o coração, com entusiasmo. Não podemos
nos desligar de repente. Por isso, para que a pessoa não sofra a humilhação e o
pesado choque de uma sensação de traição dos valores que havia reconhecido, a
passagem de uma matriz para outra se dá, se produz, minimizando e tornando o
mais abstrato possível o discurso e o tipo de experiência de que a pessoa
participava antes. “Minimizando o alcance histórico-social do Fato cristão”,
como diz a folha que vocês receberam. Realiza-se uma redução ou um esvaziamento
da densidade histórica do Fato cristão. Ao se passar do serviço a um certo tipo
de discurso para o serviço a um outro tipo de discurso, procurou-se “atenuar” o
primeiro, para não sofrer o choque de uma sensação de traição de valores,
procurou-se interpretar o primeiro minimizando seu alcance histórico,
“esvaindo-o”, tornando-o o mais vazio possível enquanto incidência histórica,
desviando-o para uma interpretação meramente escatológica, portanto abstrata, do
mundo e da vida.
Talvez o
termo minimização, usado na folha, seja o mais adequado: uma minimização da
importância da Presença, do peso presente do Fato cristão. É a tentativa de
reduzir o Fato cristão a liturgia, a sacramento, o que certamente é o alicerce,
a raiz de toda a vida da comunidade cristã (é a morte e ressurreição de Cristo,
a antecipação de sua segunda vinda: e nós reconhecemos o sobrenatural como raiz
de toda a nossa vida!). Mas, justamente porque os sacramentos constituem a fonte
da vida cristã, a fonte do mundo renovado, a fonte da existência renovada,
justamente por isso, eles são os gestos mais estranhos, do ponto de vista
humano, social e histórico, os gestos mais contrários à maneira comum de
perceber as coisas, à natureza corriqueira dos nossos esforços. Assim, os
sacramentos até foram concebidos e vividos de acordo com a sua essência, que é
de chamado de atenção escatológico, de preparação escatológica, mas essa
preparação e esse chamado de atenção foram completamente esvaziados de seu
conteúdo presente.
Essa
minimização na maneira de conceber o Fato cristão traz consigo, inevitavelmente,
um dualismo último na forma de se estar presente no mundo, um dualismo no qual
até se reconhece a existência de um fator – o fator explicativo e, em última
análise, salvífico –, que estaria num sobrenatural que paira sobre o presente,
mas que não tem incidência sobre o presente, que não pode dar um juízo sobre o
presente histórico, que não pode inspirar um uso do presente histórico, que não
ajuda o presente, a não ser num sentido meramente moralista, de inspiração à
ação: “Você precisa se empenhar”. Não passa de uma inspiração vaga à ação, de um
chamado de atenção moralista, no sentido mais vago do termo: “Você precisa se
empenhar com o mundo”. E logo que eu digo isso, eu abandono você. Além disso, há
também a consistência e a importância das urgências mundanas, que você acaba
enfrentando de acordo com o seu instinto, o seu sangue, o seu modo de ver, a sua
maneira de sentir, de acordo com a sua análise, a sua teoria, e de acordo com a
violência da sua práxis.
4. A redução do Fato cristão
Que
conseqüências podemos identificar na postura assumida por essa ampla parte do
Movimento na época que estamos comentando?
a) Em primeiro
lugar, como diz a folha, “uma concepção eficientista do empenho cristão, com
tons de moralismo”. Mais que tons: uma redução completa a moralismo! Por que
deveríamos continuar ainda a ser cristãos? Porque o cristianismo impele você a
agir, impele você a se empenhar, e tão-somente isso! É como quando os pais dizem
ao filho: “Coragem, você precisa fazer isso!”, mas, depois, você é obrigado a se
meter naquilo sozinho, como se eles não existissem (Jesus, por sua vez, diz:
“Estarei convosco até o fim do mundo”).
É um conceito de encarnação no qual o cristão é realmente rachado em dois,
fendido em dois. Ainda por cima, do ponto de vista contingente, histórico, o
cristão só continua a ter o direito de permanecer no mundo na medida em que se
lança na ação mundana: é o cristianismo ético, ou seja, a ética cristã, o
comportamento cristão, que significa que sermos cristãos no mundo se identifica
com o nosso empenho mundano. Logo, sermos cristãos no mundo significa que nos
interessamos pelos marginalizados, pelos pobres, pelas disparidades salariais,
pela injustiça no mundo do trabalho: isso é que é sermos cristãos, o
cristianismo reduzido a um moralismo eficientista.
Eu ainda me
lembro do dia em que encontrei um sujeito, que já tinha se formado na
Universidade Católica, um ex-responsável de GS, que, logo depois de eu ter
gozado um pouco com a cara dele, me disse – nós nos víamos com freqüência na
universidade, e estávamos sempre gozando um do outro, dizendo coisas sérias, mas
sempre rindo; só que daquela vez ele não riu –: “Ouça, eu venho me perguntando
por que ainda devo continuar a ser cristão”. “Ah, sim”, repliquei, “se ser
cristão significa fazer as coisas que você faz! Foram os outros que ensinaram
você a agir assim; mas eles são melhores do que nós, por isso eu não entendo por
que você não deve simplesmente se identificar com eles...” Hoje em dia, parece
claro para nós que ser cristãos não é fazer piquetes diante da universidade (o
fato de o comprometimento cristão poder até sugerir isso é uma outra história,
mas o cristianismo não é isso!), mas, naqueles dias, naquela época em que se
havia perdido o rumo, isso não era nem um pouco claro.
Portanto,
em primeiro lugar, uma concepção eficientista. Passados estes anos, o dualismo,
a divisão, é fisiologicamente sensível naqueles que percorreram esse caminho, se
continuaram a ser cristãos. Pode até ser que eles hoje façam uma “Democracia
Cristã de esquerda”, mas o Fato cristão não tem a mínima relação com o que eles
fazem: nisso, eles se identificam com a Democracia Cristã do pós-guerra, têm em
comum com ela exatamente o mesmo sistema de pensamento, a mesma postura
espiritual.
b) Segunda
conseqüência – esta é a mais grave –: a incapacidade de “culturalizar” o
discurso, de levar nossa experiência cristã até o nível em que ela se torna
juízo sistemático e crítico, passando, portanto, a sugerir formas de ação. É a
experiência cristã sem o seu potencial de incidência no mundo, pois uma
experiência só deixa marcas no mundo quando alcança uma expressão cultural (o
que não significa que isso só acontece quando essa experiência chega até a
universidade: isso não importa!). Expressão cultural significa juízo, capacidade
de juízo sistemático e crítico sobre o mundo, sobre a vida mundana, sobre a
contingência histórica, portanto sugestão de uma forma de programa e de ação.
A
experiência que não chega a esse ponto não tem rosto, não tem uma cara na
história; ela não tem rosto, por isso pode até sobreviver por um bom tempo em
épocas “pré-históricas”, mas, à medida que a sociedade, a vida humana vai
adquirindo maior consistência em suas relações, pisa em cima dessa experiência,
e ela desaparece, pois acaba cedendo às pressões do ambiente. Foi exatamente
esse o destino de muitas das tentativas de nossas famílias (não cabe aqui
nomeá-las): essas tentativas de se reunirem em grupos não chegaram a deitar
raízes. Essas coisas só começam a se tornar uma tentativa de experiência, só
começam a deitar raízes, quando correspondem a uma expressão cultural, a um
juízo crítico e sistemático, que leva à sugestão de um programa e a uma forma de
ação. E isso não pode acontecer quando um grupinho quer agir por conta própria,
como esses grupinhos sempre tentaram fazer. Se um grupinho fosse realmente capaz
de agir por conta própria, ele mesmo geraria uma trama de relacionamentos com o
Movimento inteiro – que é o que desejamos –, teria uma influência positiva sobre
a mudança do Movimento.
A segunda
conseqüência, portanto, é uma incapacidade de culturalizar o discurso e,
portanto, como corolário, uma incapacidade de formular um juízo unitário sobre a
situação. Só a expressão cultural que nasce de uma experiência unitária pode nos
tornar capazes de um juízo unitário sobre a situação. Pelo contrário – agindo
como na fábula de Esopo da raposa e das uvas –, o que se passou a fazer (estou
falando de GS e GL, na época) foi exaltar como normal as diferenças de
posicionamento nas situações, considerando que depois, quando se tivesse o poder
nas mãos, aí sim se poderia, com a organização, impor uma certa maneira de agir
comum. Por isso, teoricamente, exaltou-se a divisão, a multiplicidade indefinida
de juízos e posicionamentos: “Nós somos livres; um pode ser de direita e o outro
de esquerda”. Mas, se a pessoa dava a entender que não era de ultra-esquerda,
era tirada do caminho, quando não linchada (só porque ainda não havia chegado o
momento); quando não linchada fisicamente, linchada moralmente.
Dessa
forma, ocorreu uma divisão perante o mundo, esse mundo que tem sua urgência
contingente, suas necessidades contingentes, uma divisão terrível, que, uma vez
mais, e mais ainda, eliminava a capacidade do Fato cristão de dar testemunho ao
próprio mundo. Pois o testemunho do Fato cristão no mundo está na sua presença
perante a necessidade do mundo: está na sua presença perante a necessidade do
mundo, não na presença dos cristãos nas manifestações da “bandeira vermelha”.
c) Terceira
conseqüência: o menosprezo teórico e prático da experiência da autoridade.
Reparem que não existe ação sistemática, pensamento sistemático e ação
sistemática, se as pessoas não se tornam discípulas de mestres! Portanto, das
duas, uma: ou você reconhece a autoridade como dada, oferecida, ou você mesmo a
escolhe; ou a autoridade é uma graça da sua história, uma graça de Deus dentro
da sua história, ou você mesmo escolhe a sua autoridade. Os nomes dos chefes
daquela época (que continuam, ao menos alguns, a ser chefes hoje) eram usados da
mesma forma como, anteriormente, se usava o nome do padre fulano ou sicrano para
endossar o que se fazia. Seja como for, o Fato cristão – é preciso repetir – tem
na função da autoridade criada por Cristo o lugar geométrico em que se preserva
o Mistério, tem nela o lugar em que o reconhecimento e o respeito do Mistério
são comprovados, garantidos, atestados. Acho que poucas pessoas são obrigadas,
como nós, a repetir essas coisas quase com raiva, de tanta dor. Pena que ainda
não tenhamos gente que saiba expressar isso literariamente! E não sei se esse
não é justamente o aspecto mais agudo da preguiça ou da negligência ou da
instintividade com que agimos, e que não nos permite identificar uma hierarquia
mais adequada dos compromissos que deveríamos assumir, de acordo com o carisma
que cada um de nós tem.
Assim, na
perda de rumo generalizada, o primeiro tipo de atitude que concretamente,
historicamente, dominou GS e GL foi sair do impasse jogando-se de cabeça no
seguimento do mundo (com GL isso aconteceu também quantitativamente, com quase
cem por cento das pessoas; já em GS a coisa não foi quantitativa, a maioria não
seguiu esse caminho, mas não uma grande maioria; mas a fisionomia de GS, pela
forma como era conduzida, foi dominada por isso). A história que tinham vivido e
seus conteúdos de valor foram minimizados, interpretados ao máximo como
abstratos em relação à vida, excluídos, exilados da possibilidade de uma
incidência na contingência histórica e, sendo assim, de uma verdadeira
encarnação. Foi retirada a densidade histórica do Fato cristão (essa, volto a
repetir, é a melhor expressão). O resultado foi um dualismo naqueles que
continuaram, naqueles que queriam continuar – no âmbito cristão, quero dizer –:
um dualismo entre um céu que pairava distante e uma terra que seguia seus
caminhos e seu destino. Do ponto de vista da história da Igreja, essa é a
atitude protestante – em seu sentido essencial, próprio e puro. A teologia
secularista, que arregimenta tão violentamente o aspecto mais juvenil e mais
vivo do clero católico, e, portanto, dos jovens que se reúnem em torno dele, só
pode ser interpretada, em última análise – não enquanto intenção e não como um
juízo, quase, da coerência de sua prática, mas, sim, do ponto de vista cultural
–, a teologia secularista só pode ser vista e julgada, a meu ver, com os
critérios com que se julga um protestantismo autêntico, puro, ortodoxo ou, como
dizemos hoje, barthiano.
5. O abandono do discurso
Três,
portanto, são as conseqüências importantes a observar; e nós não damos
importância a essas observações por um amor à análise histórica, mas, sim, pelo
fato de essa dialética estar sempre presente; em maior ou menor medida, esse
choque, esse momento de prova – essa provação e essa tentação –, estará sempre
presente. A primeira conseqüência é uma concepção eficientista, moralista, do
empenho cristão: diante de uma necessidade do mundo, elabora-se uma análise
dessa necessidade, uma teoria para responder a ela e a resposta a ser dada, de
acordo com essa teoria. Toda a aposta recai sobre a medida humana, Cristo não
interessa; interessa, mas num nível além do tempo e do espaço; é uma inspiração
moral, que está além do tempo e do espaço, “transcendente”. A segunda
conseqüência é a incapacidade de culturalizar o discurso, pois a culturalização
que praticamos tem como matriz a análise ou a teoria marxista, ou seja, sempre a
análise mundana e a teoria mundana. A culturalização que praticamos tem como
matriz a experiência do mundo, não a experiência cristã, e assim teoriza,
exalta, idealiza as diferenças de opinião e de abordagem, exatamente como se
impõe uma certa diretriz “única” à trajetória do Movimento Estudantil, tanto do
ponto de vista da organização quanto da prática. A terceira conseqüência é o
menosprezo teórico e prático da autoridade, pois a autoridade é a função que
garante a autenticidade da experiência cristã.
Poderíamos extrair
muitos exemplos dessas coisas dos textos que recebi como contribuição para
preparar esta palestra. São exemplos tanto do ímpeto cheio do desejo de uma
autenticidade real quanto da mudança de postura que traiu a própria história.
Podemos ler alguns trechos de um certo jornal estudantil daquela época, feito
por GS.
“Nós também
começamos o ano escolar preocupados em lançar as iniciativas do primeiro
trimestre, alheios à situação real da escola, embora balbuciássemos timidamente
a necessidade de uma maior participação no ambiente. Mas nosso fim exclusivo
ainda eram as nossas iniciativas, a nossa proposta.” Seria suficiente
analisarmos esse trecho para entender a fundo a questão daquela época. É claro
que quem se sentia incomodado eram as pessoas decididas, as pessoas vivas, não
aquelas que se faziam de mortas. Mas, antes de mais nada: vocês percebem como já
tinha sido abandonado o discurso do Movimento, o discurso da história de GS?
Apontamentos de método cristão tinha sido radicalmente abandonado. A
premissa de Apontamentos de método cristão,
que é o ponto-chave da nossa posição, já não existia, já não era levada em
consideração.
“Nós também
começamos o ano escolar preocupados em lançar as iniciativas do primeiro
trimestre.” Realmente, para pessoas extremamente influentes e decisivas daquela
época, os textos de referência já não eram Apontamentos de método cristão
ou Passos de experiência cristã
(a não ser por alguns trechos do livrinho verde,
em que se falava de decisão, de globalidade da decisão), mas, sim, os livros de
González-Ruiz, O cristianismo não é um humanismo,
etc. No fundo, quando somos postos à prova – esta é uma outra versão do que eu
disse antes, como premissa – aparece aquilo que já tínhamos escolhido: se
perdemos o fio do discurso diante de um questionamento, de uma problemática, é
sempre porque já tínhamos escolhido outra coisa.
Foi
justamente porque o discurso já tinha sido abandonado que a situação de Gioventù
Studentesca pôde favorecer que as pessoas cedessem – como favoreceu. Pode até
ser que isso nem tenha sido compreendido entre os quadros diretivos daquela
época; mas a verdade é que, no mínimo, o nosso discurso já não era o instrumento
cultural em que as pessoas se inspiravam e que usavam. Realmente, um
eficientismo que já se podia notar antes da ocupação de 1968 incomodava aqueles
que enxergavam as coisas com uma certa objetividade ou uma certa consciência do
discurso que sempre tinham feito. Ainda por cima, a expressão cultural, na
prática, assumia a forma de uma tentativa de reunir, como numa antologia, as
coisas que os outros diziam, e não como um aprofundamento, um enfrentamento de
tudo o que acontecia inspirado na nossa experiência. Era como se uma cidade
fosse assaltada e tomada porque suas muralhas não estavam bem vigiadas: tinham
sido retiradas as sentinelas, não havia mais vigilância nas muralhas da cidade,
não havia mais vigilância sobre o discurso.
Mas também
não poderemos entender tudo isso sem nos identificar com o seu “porquê”; e esse
“porquê”, em última análise, é a dificuldade que o discurso cristão – a
experiência cristã – tem para se tornar maduro. Se não levarmos isso em conta,
além de nos escandalizarmos e julgarmos mal nossos antigos amigos, estaremos
seriamente ameaçados de falhar no presente. A impaciência não é a última das
armadilhas, é a primeira. A experiência cristã – pensem só – mudará o mundo;
mas, para mudar o mundo, é necessária toda a trajetória da história. É uma
analogia impressionante: a experiência cristã mudará a minha vida, mas precisa
de toda a trajetória da existência; mudará os nossos grupos, as nossas
comunidades, mas precisa de toda a trajetória da existência desses grupos. A
trajetória inteira é necessária!
Em resumo, a
experiência cristã não sacia o apetite eficientista febril do homem, seu desejo
de ter imediatamente, de ter, que é a tentação dos fariseus, que disseram a
Cristo: “Faça o milagre do jeito que nós dizemos que tem de ser, mande-nos um
raio do céu. Mande um raio do céu, e então nós acreditaremos em você”.
Eram eles que estabeleciam como o milagre tinha de ser: se Cristo coubesse na
medida deles, eles acreditariam. Esse realmente é o pathos que está por
trás do drama daquela época e da incerteza, da melancolia, do cansaço e das
dúvidas de hoje.
É aqui que
a pessoa entende, se dá conta do que significa a fé – crer, crer n’Ele –, do que
significa dar crédito ao Fato cristão. Pois, em certos momentos, é de fato como
morrer para nós mesmos, ou melhor, é realmente morrer para nós mesmos. Prossegue
o trecho que eu lia: “A primeira coisa de que nos demos conta é que não sabíamos
quase nada, e não tínhamos nada a dizer”. Dá para entender o equívoco dessa
frase? É semelhante ao que eles dizia antes: “Mas nosso fim exclusivo ainda eram
as nossas iniciativas, a nossa proposta”. Eles tinham adotado a acusação que os
outros nos faziam: que nós queremos afirmar a “nossa coisa”. Mas é claro! Nós
queremos afirmar o fato de Cristo, queremos afirmar a Igreja, justamente porque
a Igreja é a salvação do mundo!
“Não tínhamos nada
a dizer.” Já que a nossa história anterior, já que o nosso empenho em viver o
cristianismo, a comunidade cristã, não nos torna capazes de desafiar os
professores com a mesma habilidade que têm os marxistas, já que é assim, então
eles diziam: “Estão vendo só? Mentiram para nós; fomos traídos”. Na canção,
Judas diz: “Não foi pelos trinta dinheiros; foi pela esperança que ele, naquele
dia, suscitou em mim”.
Mas a medida da esperança era a sua! “Nós, então, entramos em contato com
pessoas e grupos que já tinham feito uma experiência de contestação na escola,
para entender bem os termos do problema a partir do testemunho e do trabalho
deles.” É o fim. A redução já está totalmente em prática. A redução já foi
completada, como se vê também no editorial do Michelaccio – do
Michelaccio daquela época, bem entendido –, que manifesta, como único
problema, o da democracia. Lentamente, ao menos como tentativa, tudo era
acomodado no conceito de democracia, mas o problema era aquele de que falei
antes. Qual é a diferença entre o cristianismo identificado com a ação social,
como nos grupos de contestação católico-marxistas de hoje, e – enquanto método –
essas frases, essa postura? Reparem, por favor, que justamente o aspecto mais
vivo das nossas assembléias, o aspecto mais vivo dos nossos grupos – mais vivo
no sentido de energia humana –, sofria mais essa tentação. Leio uma última
frase: “A questão mais importante de todas é a nossa inserção na sociedade”. Tal
como soam, essas frases parecem dominadas por uma ambigüidade; mas o que está
por trás é a escolha que já tinha sido feita, que está em contradição com todo o
nosso discurso.
6. A fidelidade à própria
história
Terceiro
elemento do nosso diagnóstico. Na perda de rumo generalizada, uma grande parte
de GS, perdão, uma certa parte de GS e os nossos primeiros universitários, como
também nossos primeiros adultos (nossos universitários e nossos primeiros
adultos quase totalmente), ficaram como que petrificados, paralisados,
intimidados e confusos com a situação. Mas uma coisa logo ficou clara, ao menos
para muitos deles: a fidelidade à história que eles tinham vivido precisava ser
mais forte e determinante que o clamor das urgências justas e a grandiosidade
dos efeitos práticos a que os outros conseguiam chegar. Isso, para aqueles que
se “salvaram” – desculpem-me o termo –, indubitavelmente foi o catalisador de
sua atitude fundamental: a fidelidade à própria história.
A
fidelidade à própria história tinha dois fatores importantes, do ponto de vista
da reflexão da consciência daquelas pessoas.
a) O
primeiro fator foi indicado na folha que vocês receberam com a palavra
“Mistério”. A fidelidade à própria história não se deu por um fideísmo, nem por
um “fidelismo”; foi uma fidelidade à própria história na medida em que essa
história dera à consciência deles, de maneira clara, uma capacidade de olhar
para o caráter decisivo da dimensão religiosa para a existência e a história do
homem. Para a vida do homem e da história, a dimensão religiosa significa a
consciência da incidência do Mistério na contingência que eu vivo. O Mistério
que incide na realidade que eu vivo se chama Cristo, em sua continuidade
histórica: “Igreja”. Isso logo ficou claro.
b) O
segundo fator dessa fidelidade à história foram a sinceridade e a coerência com
que algumas pessoas depositaram sua estima, confiança e, portanto, apoio na
autoridade, descobrindo outra vez, descobrindo de maneira nua e crua a extrema
importância que a função da autoridade tinha tido na história que haviam vivido.
Afinal, é justamente por meio da função da autoridade que é garantido o respeito
e a utilização do elemento misterioso.
A verdade é
que as pessoas que se salvaram só se salvaram, em primeiro lugar, graças ao
sentimento de fidelidade a sua história, na medida em que tinham clara – era a
única coisa que tinham clara, pode-se dizer – a grandeza da dimensão religiosa
que incidia na contingência concreta, portanto a presença do Mistério como fator
que incide na contingência humana; e, em segundo lugar, por terem voltado a
descobrir, de maneira leal e clara, o crédito que deveriam dar à autoridade, por
voltarem a descobrir a função histórica da autoridade.
Essa
posição, de várias maneiras e por um longo tempo, ficou como que condicionada
pelos limites da imaturidade, uma vez que faltava, na evolução da nossa
experiência, a descoberta que caracterizou estes dois últimos anos, e que nasceu
da proclamação da dialética “cruz-ressurreição” no Centro Péguy. Há dois anos, o
ponto preciso que liberou o fator que nos mobiliza, rompendo os limites da
imaturidade, foi o chamado à “autoconsciência”. Em 1968, não havia ainda chegado
o tempo, e por isso houve uma rigidez dentro dos limites da imaturidade
promovida por uma fidelidade mecânica às formas. Em razão disso, durante muito
tempo, especialmente nos níveis educativos, alimentou-se um conformismo, um
esquematismo e uma certa aridez, cujas conseqüências, sem dúvida, só hoje, no
sentido de em 1972, nós talvez possamos começar decididamente a remediar, se
vencermos realmente essa imaturidade em nós.
Foi
precisamente a ausência dessa autoconsciência, da consciência do que me
aconteceu com Cristo – uma consciência tal, que, mesmo que o mundo inteiro,
inclusive o clero todo do mundo, virasse uma outra coisa, eu não mudaria, pois o
que me aconteceu sou eu mesmo, é um fato que define a minha carne, os meus
ossos, o meu espírito, toda a minha ontologia: é a criatura nova –, foi a
ausência dessa consciência que fez as pessoas continuarem a ter, tanto na
universidade, nos primeiros anos, quanto, por muito tempo, no ensino médio
(inclusive hoje, em muitos níveis; mas, há alguns meses, ao menos desse ponto de
vista, o clima mudou), aquele complexo de inferioridade que convenceu muitas
delas a nos deixarem, e que ficou também bem marcado na carne daquelas que
continuaram fiéis à nossa história, dando uma rigidez a seus movimentos, a sua
maneira de falar, tornando esquemática, mecânica a oferta delas mesmas, enfim,
não gerando coisa alguma.
Essas
observações, porém, continuam a ser sumárias, pois nem todos viveram assim.
Ouçam, por exemplo, num texto daquela época, redigido por nossos universitários,
como já se explicita uma certa lucidez, embora ainda não determinasse o clima
das nossas comunidades: “O ponto de partida é que a solidariedade e os grupos
que já existem no nível universitário deixem de ser grupos justificados pelo
dever de fazer ou dizer alguma coisa, mas tornem-se espaço de conversão para
cada um, lugar de experiência da comunhão como consciência pessoal”. Ou este
outro trecho: “Em primeiro lugar, nossa maneira de conhecer é a vida nova que
nos foi dada. Não contrapomos à teoria do Movimento Estudantil uma outra teoria
que nos parece mais abrangente, mais humana: opomos uma vida diferente, graças à
qual possuímos uma outra maneira de conhecer [este ponto já está perfeito!], e
esse é o fundamento do nosso conhecimento. Mas, falando em termos mais gerais,
dizer que a nossa experiência cotidiana é a vida de comunhão significa lembrar
que existe no mundo um lugar que surgiu apenas pela força de Deus. O Fato que
nós somos, ao mesmo tempo em que não pode ser reduzido à interpretação de uma
teoria histórica, é também visível, pode ser tocado, a ponto de surpreender a
nós mesmos em primeiro lugar”. É claro que ele pode ser tocado na igreja, no
sacramento – na Eucaristia, por exemplo –, mas é impossível que a pessoa não
entenda como toda a propensão do ser cristão é tornar esse Fato visível,
sensível na universidade ou no trabalho.
E mais: “A
questão que a nossa presença na universidade impõe a idéias como ‘contestação
global’, ‘revolução’, ‘luta antiimperialista’, ‘luta de classes’ é bem mais
radical e original: ela significa testemunhar uma dimensão de fé e uma
consciência de comunhão viva, que impede que o horizonte político dentro do qual
o Movimento Estudantil age se absolutize e passe a excluir qualquer outra visão
de mundo. A alienação social não é capaz de arranhar a gratuidade de um dom que
significa para o homem a possibilidade de renascer do Alto”. São frases
claríssimas, expressão de uma consciência extremamente clara já desde aquela
época, embora – qualquer um de nós pode percebê-lo – seja ainda somente uma
aurora muito distante, apenas indicada por algumas frases, do aspecto positivo
de incidência, de alternativa à mentalidade e à teoria mundana. Esse aspecto
ainda não existe aqui, mas – e essa é a importância da coisa – esse é o método
para chegar a ele.
O que
preservou a continuidade da nossa experiência, mesmo passando por uma perda de
rumo que nos enrijeceu, por anos de confusão, de complexo de inferioridade, de
aplicação de mecanismos encontrados por um esquematismo e um conformismo que
repetia coisas feitas em anos anteriores, com um apego talvez adolescente a uma
função de autoridade; o que permitiu, mesmo assim, que depois do inverno
voltasse a primavera e a planta continuasse foi a fidelidade à própria história.
Gnoseologicamente, metodologicamente – do ponto de vista gnoseológico e do ponto
de vista prático –, está tudo aqui.
Em nossa pequena
contingência, em nossa efêmera tentativa histórica, repete-se analogicamente o
que acontece com a Igreja na história do mundo: é a fidelidade à tradição que
torna a Igreja fator de presença que cura, liberta o mundo. Não existe outra
coisa: a fidelidade à própria história. É claro que é a fidelidade do homem
vivo, não daquele que se faz de morto. Esse é um pressuposto. Seria um insulto,
se nós nos tratássemos sem esse pressuposto: é a fidelidade do homem vivo, do
homem que sente os problemas de seu tempo, que aplica sua inteligência e usa
tudo, como o bom pai de família, que tira de seu tesouro coisas novas e velhas,
como diz Jesus no Evangelho.
E quem tem medo dessas coisas? E quem não as sabe? Mas o problema é a forma
específica, a autoconsciência, a personalidade, cuja natureza é toda extraída do
Fato cristão, e, por isso, cumpre sua tarefa sendo fiel à história, à história
da nossa experiência: essa é a fórmula sintética mais abrangente da metodologia
sadia, tanto do ponto de vista gnoseológico, de postura cognoscitiva, quanto do
ponto de vista da postura prática. Foi isso que nos salvou.
E assim,
quase de repente, houve uma mudança nos últimos dois anos (o problema aconteceu
em 1968: são quatro anos, portanto; mas já havia graves antecedentes em GS pelo
menos dois ou três anos antes: aquele eficientismo, aquela ausência de
desenvolvimento cultural, etc.). Quem de nós já não sente como distantes e
remotas essas acusações – a acusação de falta de vontade de incidência sobre o
mundo, de falta de participação dos problemas do mundo –, apesar de ainda nos
sentirmos perdidos, confusos ainda, em muitos aspectos? Eu pensava nisso quando
lia, outro dia, o esquema da atividade cultural de nosso grupo de universitários
em Cagliari. Eu o lia comovido, pois pensava: quando foi que isso surgiu? É como
um milagre! É o milagre que floresceu em cima da atividade destes dois anos. Na
situação precária em que eles estão, com a ajuda ainda esporádica e fragmentária
que recebem, que pertinência, que precisão, que riqueza de horizonte! Eu quase
diria: que presunção de desafio! Devemos, simplesmente, realmente continuar na
fidelidade à nossa história, à nossa experiência, como matriz do nosso empenho
cultural e do nosso empenho político.
Os fatores,
o húmus, o alimento para a nossa presença, o rosto da nossa presença, a
capacidade, portanto, de colaborar com o mundo que a nossa presença tem, tudo
isso nós só encontramos na memória de nós mesmos: só aí! Na medida em que somos
memória e, assim, na medida em que o senso do Mistério e o senso da autoridade
são realmente os dois fatores decisivos (um, fator ideal, de concepção, de
consciência; o outro, fator de metodologia prática, concreta), na medida em que
formos essa memória, nos tornaremos realmente pais de família, da família do
mundo, que extraem de seu tesouro coisas novas e velhas: não nos escapará um só
fio de cabelo da cabeça do mundo, não nos escapará o lírio do campo, a florzinha
do campo do mundo, como não escapavam aos olhos de Cristo. Mas o chamado de
atenção é que devemos vencer a imaturidade, essa rigidez que ainda nos mantém
dentro de uma espécie de esquema de gelo. Reparem que o calor que rompe o gelo,
a energia que rompe o gelo, o calor que o derrete, não é começar a fazer coisas,
mas é a conversão, com todas as suas dimensões.
“Comunhão e
Libertação” certamente é a fórmula que define de maneira abrangente todo o
desenvolvimento, o último ponto a que chegou a nossa história: “comunhão” e
“libertação”, isso deve ser entendido de verdade, pois ainda não é. É mesmo uma
coisa embrionária na maior parte de nós: não digo apenas nos operários que
cursaram somente o primário, mas nos professores universitários. Isso ainda é
embrionário para nós, ainda tem aspectos de moralismo, ou ativismo, ou estéticos
predominantes.
Nosso verdadeiro
problema é deixar a imaturidade. Mas espero que ao menos alguém tenha pensado,
neste momento, naquilo que diz a premissa do livro marrom.
Pois, digo isto entre parêntesis, pensando especialmente nos “escribas” e nos
“fariseus” do nosso povo de Deus, que são aqueles a quem mais é dado, ou seja,
aqueles a quem é dado, como carisma ou como possibilidade de tempo, que cultivem
a pesquisa, o interesse e a expressão cultural: não sei se realmente a matriz
deles são os nossos textos! Seja como for, a metodologia é a fidelidade à
experiência. Não sei se alguém entre nós lembrou, neste momento, do que diz a
premissa: que o cristianismo não se difunde no mundo por obra nossa, mas por
graça de Deus. Portanto, deixarmos a imaturidade, tornarmo-nos maduros, é graça
do Espírito em nós. Lembremo-nos disso! E o Espírito Santo desceu quando estavam
todos reunidos no Cenáculo, quando estavam todos reunidos. O Espírito desce
sobre a nossa comunhão. Por isso, por exemplo, deitar raízes é um resultado da
expressão cultural, mas, antes de ser resultado da expressão cultural, ao menos
como tendência, é a premissa da expressão cultural. De fato, a maturidade em nós
se expressa como uma tendência profunda, uma paixão, um desejo ardente de que a
Igreja de Deus viva visivelmente no lugar em que estamos; portanto, que a
comunhão cristã seja construída no lugar em que estamos, e onde quer que
estejamos, a fim de que essa “pessoa nova”, essa “pessoa única”, como diz São
Paulo,
“na qual não há mais nem homem nem mulher, nem grego nem bárbaro, nem direita
nem esquerda” (“todos vós sois um, uma só pessoa em Cristo Jesus”), realize o
bem do bairro, da universidade, do trabalho, da paróquia, realize o bem do
mundo. Uma presença encarnada, encarnada!
Mas a
lógica da encarnação, ou seja, a lógica da missão, acontece toda em nós, pois a
encarnação no mundo, no sentido de interesse pelos problemas do mundo e de
ajuda, de colaboração real no impulso rumo à autenticidade vivido pelo mundo, é
apenas uma aura de luz, uma conseqüência inevitável desses problemas, das
exigências mundanas, da carne e dos ossos do mundo, da vida vivida como
comunidade cristã, convertida, traduzida em termos de fé. A encarnação não é
começar a se interessar pelo sindicato, pela fábrica ou pela universidade. A
encarnação, ou seja, a missão é viver a universidade, a fábrica, etc., como
comunhão. Não é começar a se interessar por estes ou aqueles problemas culturais
ou práticos ou sociopolíticos, mas viver a nossa humanidade inteira como
comunhão.
Resumindo,
o mundo, com todos os seus terremotos, é instrumento de chamado de atenção de
Deus para a autenticidade e a verdade da vida, para todos, mas, em particular,
para o cristão, que é como que a sentinela no campo do mundo. Autenticidade,
exigência de autenticidade: era esse o valor que estava no coração daquela
época, da “insurreição” (pensemos na nossa presença na Igreja, por exemplo:
vocês se dão conta de que somos tratados como contestadores? Nós, para os
outros, até certo ponto, somos parte do fenômeno de 1968: os contestadores. De
fato, é um desejo de autenticidade que nos move nas paróquias ou nas dioceses!).
Mas essa autenticidade foi buscada negando o passado, como uma erupção
repentina, como uma erupção: o “novo” era entendido como erupção sem relação com
seus antecedentes.
Em segundo lugar,
diante do que normalmente acontece no mundo, nós nos veremos um pouco perdidos,
com um complexo de inferioridade, pois é longo o nosso caminho até a maturidade:
nós só teremos a maturidade completa no fim do Apocalipse. Na história da
Igreja, quando a Igreja e os cristãos não tiveram esse complexo de
inferioridade, quantas vezes, porém, não viveram o equívoco mundano (pensando do
Humanismo em diante)? A graça de um Santo Tomás de Aquino é uma graça milagrosa,
que não necessariamente Deus concede na história, e, se o faz, o faz quando
quer. No fundo, como lei, não podemos evitar estar perdidos. “O mundo rirá, e
vós chorareis. O mundo zombará de vós”.
É o conceito de perseguição. Reparem que o mundo, para nos perseguir, tem em
nós, na nossa vida, um ótimo ensejo. O mundo encontra motivo de escândalo em
nós, e tem razão, do ponto de vista do ensejo mecânico. A perseguição tem sempre
um ótimo ensejo no nosso comportamento; por isso, quando estamos perdidos, não
temos nem a consciência limpa. Não podemos dizer: “Sou puro, mas tenho medo”.
“Sou pecador”, é isso que devemos dizer quando estamos perdidos.
Nessa perda
de rumo, este é o divisor de águas: entre a pessoa que fica fiel a sua história,
àquilo que viu (“Renova, ó Senhor, a palavra com a qual despertaste a minha
esperança”), e aquela que, ao contrário, tomada pela impaciência da canção de
Judas, porque a promessa não corresponde à urgência que ela sente no presente,
empresta, do mundo, aquilo que a satisfaça e a faça sentir-se digna de viver,
empresta do mundo o significado de sua contingência, empresta do mundo o
significado da história; e, se retém o antigo, se mantém a fé, faz isso
escatologicamente, como um ponto distante, antecipado em gestos estranhos (os
padres nas igrejas, a religião dos sacramentos). Em termos práticos, a energia
do Fato cristão se reduz a um “seja uma boa pessoa, interesse-se pelo mundo”, a
uma admoestação ao empenho, a um moralismo e tão-somente isso. Ao passo que,
diante da perda de rumo, aqueles que permanecem fiéis a sua história terão um
tempo de martírio maior ou menor, no qual entenderão que seria preciso agir mas
não saberão o que fazer, e assim, de um lado, serão objeto da zombaria do mundo,
serão pisados pelo mundo; de outro, virá de seu próprio íntimo a dúvida sobre
sua fé, e por isso serão obrigados a lutar contra todos, em todas as frentes.
Serão realmente postos à prova. Em maior ou menor medida, será sempre assim, a
menos que nos retiremos, fingindo de mortos, para as redondezas do campanário ou
para os grupos de comunhão, agindo de acordo com a imaturidade de que falamos
antes.
Por isso, é
de extrema importância, para quem realmente tem como critério a fidelidade à sua
experiência e à sua história, a eliminação da imaturidade. Todas as dificuldades
que temos para assumir de maneira unitária o problema de Comunhão e Libertação
nas fábricas ou na universidade, para assumir nosso grupo paroquial ou nosso
grupo de comunhão formado por famílias amigas, vocês acham que tudo isso é o
quê, se não for imaturidade! Pois a pessoa é uma só (a autoconsciência) e o Fato
cristão é um só. Isso não significa que eu, então, opto pela paróquia. É Deus
quem escolhe por você, e, se você vai trabalhar, vai à universidade, é a
mesmíssima coisa que estar à sombra do campanário! Quando volta para casa do
trabalho, depois de ter batalhado nos sindicatos, no trabalho sindical, essa é
mais uma esfera em que, na medida de suas energias e do tempo que tem, você
também deve viver o mistério da comunhão.
A imaturidade. De
outro lado, porém, aqueles que rompem a linha da fidelidade à tradição e
depositam suas esperanças, como dizia o profeta, nos carros e nos cavalos, nos
egípcios, no pacto com os egípcios (e não dizem que estão rompendo o pacto com
Iahweh; mas rompem-no, se fazem um pacto com os egípcios, e Deus diz isso a
eles; vejam os primeiros capítulos de Isaías, ou os capítulos 30-31), esses
desposam o ativismo, a eficiência imediata. Existe algum critério mais mundano
do que esse? “Aparecerão pseudocristos e pseudoprofetas, e farão coisas grandes,
que surpreenderão o mundo inteiro, de tal forma que a caridade em muitos
esfriará”.
O que é a caridade? A fé em Cristo, aderir com a própria vida a Cristo,
reconhecer Cristo e, portanto, reconhecer a comunhão. Isso é a caridade. Sendo
que os outros fazem coisas maiores, a pessoa não reconhecerá a comunhão para se
lançar no eficientismo; é por isso que não se consegue traduzir o Fato cristão,
a fé, em termos culturais, como expressão cultural, é por isso que se deixa
completamente de colaborar com Deus no mundo, que se deixa tudo por conta do
Espírito Santo, deixando de se interessar por proporcionar a continuidade de Sua
Igreja na história, deixando de colaborar, enfim, para traduzir o mundo em
Igreja. Como se a pessoa dissesse: a Igreja é infalível, pois o Espírito Santo
está com ela; mesmo que eu não me interesse mais, ela continuará do mesmo jeito.
Na
fidelidade à própria história, ficam bem claros os dois pontos firmes. Um,
cultural: a incidência do Mistério na maneira de conceber, de analisar e de
teorizar, a incidência do Mistério na flexão cultural, metodologicamente. Esse é
o ponto firme, essa, em nós, é a imaturidade, pois a nossa metodologia ainda é
mundana em sua expressão cultural (e, ao menos como tendência, sempre será). Mas
o Mistério não é “o mistério”; “Deus” é Cristo e a Igreja. O ponto firme,
portanto, é a comunidade cristã, o mistério do pacto, da comunhão, como fator
que determina, metodologicamente, a própria maneira de pensar, a própria
cultura. Esse é o ponto. De outro lado, o outro ponto firme, o estorvo, é o
nosso amor-próprio. O primeiro é a dificuldade da metanóia como cultura, o
segundo é a dificuldade da metanóia como moral, ou seja, a repressão do
amor-próprio e o reconhecimento da autoridade, da função da autoridade.
(traduzido
por Durval Cordas)