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De 18 a 22 de agosto, quatrocentas pessoas se
reuniram, em La Thuile,
para se ajudar a retomar o caminho percorrido desde os Exercícios
da Fraternidade de CL, em abril deste ano (Da
fé, o método).
O percurso desenvolvido na
Assembleia Internacional de Responsáveis -
Experiência: o instrumento para um caminho humano - pode ser lido e aprofundado no texto
completo aqui disponível:
Arquivo em PDF
- La Thuile 2009
Síntese -
Julián Carrón
La Thuile,
22 de agosto de 2009, sábado, manhã
1.
Nem toda a confusão ou todo o sentimento de estarmos perdidos que trazemos por
dentro pode derrotar a beleza do que ouvimos e vivemos nestes dias; tanto é, que
estivemos totalmente tomados ante a imponência da beleza. E toda a possibilidade
de esperança que temos é de que isso reaconteça, que reaconteça sempre algo que
possa vencer essa confusão e esse sentimento de estarmos perdidos, pois – como
dissemos – toda a confusão e todo o sentimento de estarmos perdidos têm uma
razão de ser: a falta de juízo, a experiência reduzida apenas a prova e a uma
simples reação diante do que provamos. Por que prevalece sempre em nós essa
falta de juízo, apesar das muitas experiências de libertação, como a que vivemos
neste dias? Digo-o logo: por uma falta de método.
Fiquei
marcado para sempre por um episódio que me aconteceu na casa de uma amiga,
professora de Barcelona, em que encontrei duas moças do último ano da graduação.
Perguntei a elas: “Agora que vocês estão terminando os estudos, têm a respeito
da matemática alguma certeza que podem comunicar?” Elas me responderam sem
pestanejar: “Sim”. “E a respeito da vida?”... Caladas, ficaram caladas. Não é
que não tivessem vivido, pelo contrário, tinham vivido muito mais que todas as
aulas de matemática que tinham tido; mas qual é a diferença? Que, na matemática,
tinham aprendido um método que permitia construir aos poucos um conhecimento
suficiente para, no final de um percurso, poderem ter certezas a comunicar; mas,
a respeito da vida, não, ninguém tinha posto em suas mãos um instrumento para
fazer o percurso, para chegar a essa certeza. Por isso, em sua tenra idade
começavam já a se tornar velhas e vazias, pois tudo o que lhes tinha acontecido
não as tornava pessoas cheias de certeza.
Assim, diante da pergunta: “É possível vencer a
confusão ou temos de nos resignar a viver perdidos?”, a decisão que devemos
tomar é se queremos percorrer um caminho, de modo tal que tudo o que vivemos se
torne realmente experiência, ou se nos contentamos com qualquer uma das reduções
de que falamos nestes dias. Vemos entre nós, é algo palpável, que é inútil
repetir um discurso, por mais correto que seja, que não basta uma “lógica de
grupo” (como dizia Dom Giussani no último livro que transcreve os encontros com
os responsáveis dos universitários publicado).
Precisamos fazer uma experiência pessoal. Mas o que impressiona, amigos, é que
essa era a convicção de Dom Giussani desde a primeira aula: “Desde a minha
primeira aula, eu sempre disse: ‘Não estou aqui para que vocês considerem como
suas as ideias que eu lhes transmito, mas para lhes ensinar um método verdadeiro
para julgar as coisas que eu lhes direi. E as coisas que lhes direi são uma
experiência que é o resultado de um longo passado: dois mil anos’”.
Tinha consciência, desde o início, de que não bastava nem mesmo toda a
imponência da sua pessoa, do seu testemunho: era preciso pôr o eu em movimento,
para que ele mesmo pudesse julgar, desde o primeiro instante. Num jovem que ouve
isso, o que acontece é a exaltação do sujeito. Exatamente o contrário da
eliminação do eu para exaltar um certo mecanicismo ou simplesmente o fato de
pertencer a um grupo; é levar a sério o sujeito, de modo tal que este possa ter
em suas mãos um método que permita julgar o que é proposto. E Dom Giussani
prossegue: “O respeito a esse método caracterizou, desde o início, o nosso
empenho educativo, indicando com clareza o seu objetivo: mostrar a pertinência
da fé com as exigências da vida [eis o porquê da insistência sobre o julgar].
Pela minha formação na família e no seminário, primeiro; posteriormente, pela
minha meditação, estava profundamente convencido de que uma fé que não pudesse
ser descoberta e encontrada na experiência presente, confirmada por esta, útil
para responder às suas exigências, não seria uma fé capaz de resistir num mundo
onde tudo, tudo, dizia e diz o contrário [...]. Mostrar a pertinência da
fé com as exigências da vida e, portanto – este ‘portanto’ é importante para mim
-, demonstrar a racionalidade da fé implica um conceito preciso de
racionalidade. Dizer que a fé exalta a racionalidade quer dizer que a fé
corresponde às exigências fundamentais do coração de todo homem. Com efeito, a
Bíblia, no lugar da palavra ‘racionalidade’, usa a palavra ‘coração’”.
Desde a
primeira aula... É impressionante ouvir isso de novo, depois de anos, depois do
que vimos nestes dias. Dom Giussani tinha consciência de que, se não conseguisse
pôr o eu em movimento, tudo teria sido inútil; tinha consciência de que a
testemunha não é suficiente, mas que a prova de sua grandeza é a capacidade de
pôr o sujeito em movimento, ou seja, a razão e a liberdade. Tudo o que queria
naquela época – e quer de nós hoje – era justamente o renascimento do eu em cada
um de nós, pois Cristo veio justamente para isso, para que o nosso eu renasça.
Era a sua constante, quase obsessiva paixão: que tudo aquilo com que nos
envolveu se torne nosso. E o ponto-chave é o juízo; é o juízo que torna
experiência uma coisa que fazemos.
Mas vimos
como temos dificuldade para compreender o que é a experiência e o que é o juízo.
Nós sempre dizemos “juízo”, sem nos dar conta de que o estamos dando; por
exemplo, não nos damos conta de que dizer “nem isso me basta” é um juízo, ou
seja, implicou uma comparação, por mais rápida que tenha sido, entre algo que
nos aconteceu e o nosso coração. E, se eu não me dou conta disso, é inútil para
a vida. Dizer “vi um homem contente” é, também, um juízo; e dizer “isto
corresponde finalmente às exigências do meu eu” é, mais uma vez, um juízo. Nem
mesmo nos damos conta de que estar aqui exigiu uma miríade de juízos! Essa
redução da experiência, em pleno andamento, nós a vemos, é palpável.
2.
Se é assim, temos alguma chance? Temos uma chance, amigos, existe uma chance:
partir da experiência. Olhemos juntos – como dissemos há um minuto – para a
experiência que vivemos nestes dias. Toda a confusão não foi capaz de evitar que
reconhecêssemos a beleza das montanhas, ou dos cantos, ou dos testemunhos, ou a
imponência de certos gestos. Nada. Parece pouco dizer isso, mas é muitíssimo, é
uma fenda que se abre na confusão: a confusão pode ser vencida, e em alguns
momentos, nestes dias e neste ano, nós vivemos essa vitória. Não assistimos
apenas a determinadas palestras ou a certas coisas, a uma série de iniciativas
com que preenchemos o tempo: vivemos a experiência dessa vitória sobre a
confusão. É possível fazer uma experiência que tenha em seu âmago o juízo de
reconhecimento a que nós podemos aderir, como aderimos a algo verdadeiro. Pois o
juízo – como vimos – não é uma coisa intelectual, para pessoas que complicam a
vida, mas é o reconhecimento do que temos bem à frente dos nossos olhos, até a
sua implicação última; é a forma humana de relação com a Presença que nos
sobrevém. O juízo é uma resposta, é o acontecimento da resposta à provocação da
Presença, é a maneira como a razão capta o significado da realidade. Por isso, a
falta de juízo equivale à falta do eu, do meu olhar, da minha consciência, e por
conseguinte não há conhecimento, apenas reação.
É visível a
dificuldade que temos, pois o juízo ainda nos parece um gesto intelectual, que
parte do zero, como uma produção autônoma e espontânea do intelecto, não como o
contragolpe do ser, que implica desde o início o movimento do eu, despertado
pela irrupção de uma outra coisa. E – como vocês podem ver – é essa experiência
elementar que nós fizemos nestes dias que Dom Giussani nos propõe. Não é que Dom
Giussani tenha algum poço secreto do qual retira as ideias; ele simplesmente é
tão leal com a experiência que faz, percebe tão fortemente todos os fatores, é
tão homem, está tão presente àquilo que faz, que nos ajuda a reconhecer isso,
tanto assim que, se não estivéssemos com ele, provavelmente não tomaríamos
consciência do que acontece nesse acontecimento extremamente rápido, nessa
unidade. Essa é a companhia que Dom Giussani continua a ser para nós. Mas o que
Dom Giussani nos diz é a explicitação, é o momento em que ele toma consciência,
e portanto nós também, daquilo que acontece, daquilo que todos experimentamos,
se partimos da experiência.
Assim,
tenho-me dado conta cada vez mais nestes últimos meses, nos diversos encontros,
de que existe uma confusão entre a intenção de seguir e o seguimento real de Dom
Giussani. Todos temos a boa intenção de seguir (até estamos aqui). Mas isso não
basta, porque uma coisa é a intenção e outra é a comparação cerrada entre o que
nós fazemos e o que ele diz, que exige o seguimento.
Isso se
esclareceu de um modo evidente para mim quanto uma garota contou como levou a
sério o capítulo X de O senso religioso e começou a fazer a comparação:
era um espetáculo! Não era uma comparação genérica, “leio o capítulo e depois,
no fundo, no instante seguinte, continuo a tomar como ponto de partida o que me
dá na cabeça”, que é o que nós fazemos quando nos encontramos aqui depois de ter
lido o capítulo; ela tinha realmente começado a fazer uma verificação cerrada
entre a maneira como agia e o texto, e lia e relia para ver, para julgar, para
fazer a comparação entre a maneira como tinha agido e o que Dom Giussani diz. E
ela mesma ficava boquiaberta diante do que estava acontecendo, pois em
pouquíssimo tempo tinha percorrido um caminho enorme. E eu me dei conta: quer
dizer que nós, muitas vezes, pensamos que estamos seguindo porque temos a
intenção de seguir, mas a intenção de seguir não é seguir, é um requisito para
seguir, mas não é suficiente. Cada um deve tomar posição diante disso, porque,
do contrário, todas as dificuldades que vimos não são superadas; apenas as
remetemos para o futuro.
Seguir Dom Giussani é fazer uma experiência
humana, ou seja, não apenas provar, mas emitir um juízo. E por que é que Dom
Giussani insiste tanto conosco (que somos como todos os outros, empastados da
mentalidade mundana como todo o mundo)? Porque percebe que só “a evidência da
experiência”
pode nos convencer, pode nos ajudar a entender uma outra forma de agir e a não
percebê-la como estranha a nós, como se para seguir alguém tivéssemos
simplesmente de arrancar a nossa liberdade e a nossa razão. Não. Somente se
enxergamos a evidência que aparece na experiência podemos nos surpreender
dizendo: “Isso, sim, é humanamente conveniente para mim; isso, sim, é razoável
fazer; isso, sim, é que me corresponde”. Do contrário, como sempre acontece,
mantemos a intenção de seguir, mas a nossa mentalidade é a de todo o mundo:
temos a intenção de seguir Giussani, mas a mentalidade é a mesma de todo o
mundo, e temos uma montanha de indícios disso (desde o caso Eluana Englaro até
todos os problemas que apareceram nestes dias de confronto, e que são comuns a
todos os continentes).
3.
Ontem, um de vocês me disse: “Muitos dos nossos amigos não são definidos pelo
encontro que fizeram: o lugar a que ‘pertencem’ originalmente e a mentalidade
que já tinham define mais o eu deles que o encontro que fizeram”. Dentro desta
nossa dificuldade para compreender a necessidade do juízo aparece algo mais
profundo, que é uma concepção de fé pela qual esta, apesar de tudo, não é uma
experiência, não é uma experiência capaz de incidir. Às vezes, tenho a impressão
de que é como se almejássemos que a fé fosse algo semelhante a uma transfusão de
sangue, em que o eu fique de fora, algo mecânico. Mas isso é contrário à
primeira aula de Dom Giussani! E imaginem a todas as aulas que vieram em
seguida! Ou seja, não basta nem mesmo estarmos juntos, não basta a lógica de
grupo, porque, como mentalidade, pertencemos a outro lugar.
Então – dizia eu no prefácio que escrevi para
Qui e ora, citando Dostoievski -, nessa situação podemos entender a grandeza
da pergunta: “‘Um homem culto, um europeu de nossos dias pode crer, crer
realmente, na divindade do filho de Deus, Jesus Cristo?’ Talvez ninguém tenha
apresentado de um modo mais sintético e peremptório que Dostoievski, em Os
irmãos Karamazov, o desafio diante do qual se encontra o cristianismo na
modernidade. Dom Giussani teve a coragem de medir forças com esse desafio
histórico, radicalizando-o, se possível. De fato, Dom Giussani aposta tudo na
capacidade de sua proposta educativa de gerar um tipo de sujeito cristão para
quem, ‘mesmo que todos fossem embora – todos! -, quem possui essa dimensão de
consciência pessoal (gerada pela fé) não pode deixar de começar tudo de novo
sozinho’”.
Essa consciência pessoal, essa dimensão de
consciência pessoal pode ser descrita como a consciência de pertencer, de
pertencer a Cristo. É evidente para Giussani que, se acontecesse o que ele diz –
que todos fossem embora -, ninguém poderia apoiar-se numa lógica de grupo. Se a
pessoa ficasse sozinha, para poder enfrentar esse desafio precisaria da
“passagem da lógica de grupo para a dimensão de consciência pessoal como
pertencer”.
Pois nós, muitas vezes, em determinados lugares, somos obrigados a começar do
princípio sozinhos, ou temos de estar no trabalho sozinhos, ou temos de
enfrentar uma série de situações sozinhos; mas será que a pessoa, aí, fica de
pé, ou temos de carregar o grupo sempre conosco? É possível gerar uma criatura
nova, que tenha uma consciência que nasce do encontro que fez, um sujeito
cristão capaz de recomeçar do princípio?
Dom
Giussani, que tem tanta consciência do desafio histórico e tanta consciência de
nossas reduções da experiência e de nossas reduções da fé – pois essa é a
questão -, desafia todas essas resistências (daquela época e de hoje) com o
termo “experiência”, para reapresentar o cristianismo em sua originalidade, em
sua natureza, em seus aspectos elementares. Por meio da palavra “experiência”,
são afirmados e defendidos os elementos essenciais do cristianismo e da fé,
contra a redução fideísta-espiritualista e ética.
Como vimos, o ponto de partida da fé é um
acontecimento, o encontro com um fato objetivo; não uma doutrina, uma cultura
abstrata ou um passado, mas uma presença real, aqui e agora, um fenômeno de
humanidade diferente, que é o único que corresponde à natureza do que aconteceu
no início. Pensemos em como Dom Giussani nos remete constantemente àquele que
será para sempre o cânon do que o cristianismo é: o encontro de João e André. O
que eles viveram foi uma experiência porque puderam dizer: “Encontramos o
Messias”.
Deram um juízo diante daquela excepcionalidade. Há uma aparente desproporção
entre o que acontece e esse juízo de excepcionalidade. Por que é possível dar um
juízo tão depressa (como dissemos nestes dias diante das montanhas)? Porque,
quanto mais é excepcional, mais fácil é dar esse juízo de excepcionalidade;
porque, quanto mais é excepcional, mais vêm à tona todas as exigências da minha
razão, da minha liberdade (de beleza, de verdade, de justiça), para captar essa
excepcionalidade. Justamente porque o cristianismo é um fato objetivo tão
excepcional diante de nós, e que exalta o eu, justamente por isso desencadeia
toda a criticidade de que falávamos nestes dias, toda a capacidade da razão. É
precisamente essa exaltação da razão e da liberdade que demonstra a existência
da excepcionalidade (diante do que não é excepcional eu não me perturbo, não
nasce nem uma ruga). Em outras palavras, algo se demonstra excepcional porque me
move, me agarra e me leva, facilita o juízo para mim, ou seja, exalta o meu eu,
pois – e isto é impressionante – o interlocutor dessa excepcionalidade é o
coração, não o que eu penso, a minha cultura, as minhas ideias ou tudo o que eu
sobreponho, ou seja, a minha confusão. Nada pode impedir o diálogo, o desafio
que essa excepcionalidade provoca no coração, eliminando-o por completo. Se não
fosse assim, seria inútil estar aqui; teríamos de nos resignar a não poder sair
dessa situação.
Olhar para o que aconteceu em nós durante estes
dias é o que poderá nos convencer da chance que temos, ou seja, de que é
possível a geração de um sujeito próprio se cada um é leal ao acontecimento que
lhe permite fazer essa experiência. Essa Presença excepcional interpela o
coração, provoca-o, desafia-o, mobiliza toda a nossa humanidade, põe-na em jogo,
compromete a nossa razão até o ponto de exigir um juízo de nossa parte.
Artificioso seria detê-lo. Sem esse juízo, o encontro não se pode tornar
experiência nossa, a adesão da fé não pode ser razoável. “Com efeito, o mesmo
gesto com que Deus se torna presente ao homem no acontecimento cristão exalta
também a capacidade cognitiva da consciência, ajusta a agudeza do olhar humano
para a realidade excepcional que o provoca. Chama-se graça da fé.”
Expresso de uma forma mais teológica: “A fé é o ‘reconhecimento’ de que Deus se
tornou fator da experiência presente. Enquanto ‘reconhecimento’, é um ato da
razão, um juízo, não um sentimento ou um estado de espírito. A fé representa a
realização da razão humana”,
tornada possível pela presença contemporânea de Cristo, que se torna
experimentável por intermédio de uma realidade humana.
Se não é um
juízo, a fé é um espiritualismo ou um sentimentalismo. É uma fé, no fundo, sem
motivos adequados, ou seja, não é humana, e fica bem claro que não é humana
porque logo cai por terra, não me determina, não incide, porque o meu
posicionamento original (a minha tradição religiosa, familiar, cultural ou da
tribo) é mais decisivo que a fé. No fim das contas, não existe a possibilidade
de um sujeito diferente. Não é que essa excepcionalidade toca você e o deixa
como era antes, mas desperta em você todas essas exigências e facilita-lhe o
reconhecimento. Por isso, o juízo é o ponto-chave da experiência: essa
excepcionalidade foi capaz ou não de despertar o eu com toda a sua capacidade,
para chegar até o juízo? Assim, percebemos claramente que não basta a
testemunha, mas, ao mesmo tempo, o eu não pode chegar até aí sem a testemunha.
Testemunha e juízo não podem ser postos em contraposição, pois a prova dos nove
é que a testemunha me desperta (e nisso está toda a concepção autenticamente
católica da fé): ou a presença de Cristo é capaz de despertar o eu e de pôr em
movimento toda a capacidade humana, para gerar uma criatura nova, ou há em nós
simplesmente uma afirmação de Cristo pela qual Ele, mesmo sendo constante e
insistentemente afirmado, continua incapaz de mudar o eu. Podemos ver aqui a
incidência frequente de uma certa mentalidade protestante. Se a fé não é
católica, se não está de acordo com a perfeição que coincide com a natureza do
acontecimento tal como este se deu, é inútil, ou seja, podemos ir para casa e
não perder mais tempo. É aí, portanto, quando a pessoa percorre esse caminho,
que ela registra a conveniência humana, a correspondência desse acontecimento a
sua humanidade. Mas nós, mais uma vez, podemos estar diante de fatos imponentes
e não caminhar, e no final é como se tudo isso de nada servisse, pois não faz o
eu crescer.
4.
A prova da fé (essa experiência humana em que o eu inteiro está implicado e
envolvido) é a memória. Quero terminar com o olhar de todos nós voltado para
esta grande passagem da Escola de Comunidade: “João e André tinham fé, porque
tinham certeza de uma Presença experimentável: quando estavam lá, primeiro
capítulo de São João, sentados na sua casa, aquela noite, olhando-O falar, era
uma certeza de uma Presença experimentável de uma coisa excepcional, o divino
numa Presença experimentável. Depois - acrescento - foram para suas casas
dormir: André voltou para sua mulher; João, para sua mãe. Voltaram às suas
casas, comeram nas suas casas, dormiram nas suas casas, levantaram-se, foram
pescar junto aos outros companheiros. Aquilo que tinham visto na tarde anterior
dominava a sua cabeça: sim ou não? Sim. Eles O viam? Não. Mas o homem
experimenta, faz a experiência de uma presença, não somente quando a toca, nariz
com nariz; aliás, este modo de querer experimentar uma presença normalmente
funda uma coisa inútil, funda um relacionamento que não dura - como entre todos
os rapazes e as moças -, mesmo quando existe, não existe. Pelo contrário, entre
o dia anterior e o meio-dia, quando voltaram para casa com as barcas cheias de
peixe e se colocaram lá na praia e de novo falavam do dia anterior, o segmento
que coloca em relação o dia anterior e o dia depois chama-se memória, e a
memória é a continuidade da experiência de um presente, a continuidade da
experiência de uma pessoa presente, de uma presença que não tem mais as
qualidades e o caráter imediato de quando uma pessoa segura o nariz de outra e
puxa, puxa, puxa, ou então segura os cabelos e puxa os cabelos, como as crianças
fazem com a mãe; aquele caráter imediato não determina de fato a profundidade e
a segurança do relacionamento. Mesmo que não o tivessem visto por três semanas,
o desejo predominante daqueles dois era o de reencontrá-lo, porque era claro que
era Ele, que Ele era Ele; não sabiam quem fosse, mas era Ele. A memória é a
consciência de uma Presença. A respeito dessa Presença é preciso distinguir o
seu começo da sua continuidade. Quando começou, viam-se os cabelos, e, sendo que
havia vento e os cabelos caíam sobre os olhos, instintivamente a pessoa puxava
os cabelos para o lado. Mas no dia seguinte não havia mais o vento e não tinham
à sua frente aquele rosto, e mesmo assim era presente, e depois de uma semana
aquela Presença ainda era presente, e depois de um mês era ainda presente; se
tivessem vivido três anos sem revê-lo, toda a sua vida teria sido dilacerada
pelo desejo de rever os cabelos agitados pelo vento: mas aquele era Ele, uma
segurança absoluta. O último [...] pensamento que teria vindo à mente daqueles
dois, se não O tivessem mais visto por seis meses, teria sido a dúvida de que
tivesse sido uma ilusão. Não teria nunca vindo à mente deles que tivesse sido
uma ilusão: alguém que O viu assim... impossível que isto viesse à mente [alguém
que fez uma experiência como essa... impossível: se nos vem à cabeça que seja
apenas uma ilusão, é porque não fizemos essa experiência]. Em vez d’Ele com os
cabelos ao vento, em vez de olhá-Lo falar com a boca que se abre e se fecha, Ele
chega até você através das nossas presenças, que somos como que as máscaras
frágeis, a pele frágil, as máscaras frágeis de algo potente que é Ele e que está
dentro, que não sou nem eu, nem você, nem ele, e mesmo assim passa através de
mim, passa através de você, passa também através dele, e as coisas de hoje
ninguém as diz a você. Não são minhas, são d’Aquele que André e João, naquela
tarde, estavam lá a olhar falar; falava, e falava, e, vencendo assim o tempo e o
espaço, falou hoje a você; e lhe falará depois de amanhã e daqui a dez anos”.
(Traduzido
por Durval Cordas)