Notícias



Disponível o texto da Assembleia de La Thuile

Data: 24/9/2009

Nova pagina 1

De 18 a 22 de agosto, quatrocentas pessoas se reuniram, em La Thuile, para se ajudar a retomar o caminho percorrido desde os Exercícios da Fraternidade de CL, em abril deste ano (Da fé, o método).

O percurso desenvolvido na Assembleia Internacional de Responsáveis - Experiência: o instrumento para um caminho humano - pode ser lido e aprofundado no texto completo aqui disponível: Arquivo em PDF - La Thuile 2009

Síntese - Julián Carrón

La Thuile, 22 de agosto de 2009, sábado, manhã

1. Nem toda a confusão ou todo o sentimento de estarmos perdidos que trazemos por dentro pode derrotar a beleza do que ouvimos e vivemos nestes dias; tanto é, que estivemos totalmente tomados ante a imponência da beleza. E toda a possibilidade de esperança que temos é de que isso reaconteça, que reaconteça sempre algo que possa vencer essa confusão e esse sentimento de estarmos perdidos, pois – como dissemos – toda a confusão e todo o sentimento de estarmos perdidos têm uma razão de ser: a falta de juízo, a experiência reduzida apenas a prova e a uma simples reação diante do que provamos. Por que prevalece sempre em nós essa falta de juízo, apesar das muitas experiências de libertação, como a que vivemos neste dias? Digo-o logo: por uma falta de método.

Fiquei marcado para sempre por um episódio que me aconteceu na casa de uma amiga, professora de Barcelona, em que encontrei duas moças do último ano da graduação. Perguntei a elas: “Agora que vocês estão terminando os estudos, têm a respeito da matemática alguma certeza que podem comunicar?” Elas me responderam sem pestanejar: “Sim”. “E a respeito da vida?”... Caladas, ficaram caladas. Não é que não tivessem vivido, pelo contrário, tinham vivido muito mais que todas as aulas de matemática que tinham tido; mas qual é a diferença? Que, na matemática, tinham aprendido um método que permitia construir aos poucos um conhecimento suficiente para, no final de um percurso, poderem ter certezas a comunicar; mas, a respeito da vida, não, ninguém tinha posto em suas mãos um instrumento para fazer o percurso, para chegar a essa certeza. Por isso, em sua tenra idade começavam já a se tornar velhas e vazias, pois tudo o que lhes tinha acontecido não as tornava pessoas cheias de certeza.

Assim, diante da pergunta: “É possível vencer a confusão ou temos de nos resignar a viver perdidos?”, a decisão que devemos tomar é se queremos percorrer um caminho, de modo tal que tudo o que vivemos se torne realmente experiência, ou se nos contentamos com qualquer uma das reduções de que falamos nestes dias. Vemos entre nós, é algo palpável, que é inútil repetir um discurso, por mais correto que seja, que não basta uma “lógica de grupo” (como dizia Dom Giussani no último livro que transcreve os encontros com os responsáveis dos universitários publicado[1]). Precisamos fazer uma experiência pessoal. Mas o que impressiona, amigos, é que essa era a convicção de Dom Giussani desde a primeira aula: “Desde a minha primeira aula, eu sempre disse: ‘Não estou aqui para que vocês considerem como suas as ideias que eu lhes transmito, mas para lhes ensinar um método verdadeiro para julgar as coisas que eu lhes direi. E as coisas que lhes direi são uma experiência que é o resultado de um longo passado: dois mil anos’”[2]. Tinha consciência, desde o início, de que não bastava nem mesmo toda a imponência da sua pessoa, do seu testemunho: era preciso pôr o eu em movimento, para que ele mesmo pudesse julgar, desde o primeiro instante. Num jovem que ouve isso, o que acontece é a exaltação do sujeito. Exatamente o contrário da eliminação do eu para exaltar um certo mecanicismo ou simplesmente o fato de pertencer a um grupo; é levar a sério o sujeito, de modo tal que este possa ter em suas mãos um método que permita julgar o que é proposto. E Dom Giussani prossegue: “O respeito a esse método caracterizou, desde o início, o nosso empenho educativo, indicando com clareza o seu objetivo: mostrar a pertinência da fé com as exigências da vida [eis o porquê da insistência sobre o julgar]. Pela minha formação na família e no seminário, primeiro; posteriormente, pela minha meditação, estava profundamente convencido de que uma fé que não pudesse ser descoberta e encontrada na experiência presente, confirmada por esta, útil para responder às suas exigências, não seria uma fé capaz de resistir num mundo onde tudo, tudo, dizia e diz o contrário [...]. Mostrar a pertinência da fé com as exigências da vida e, portanto – este ‘portanto’ é importante para mim -, demonstrar a racionalidade da fé implica um conceito preciso de racionalidade. Dizer que a fé exalta a racionalidade quer dizer que a fé corresponde às exigências fundamentais do coração de todo homem. Com efeito, a Bíblia, no lugar da palavra ‘racionalidade’, usa a palavra ‘coração’”[3].

Desde a primeira aula... É impressionante ouvir isso de novo, depois de anos, depois do que vimos nestes dias. Dom Giussani tinha consciência de que, se não conseguisse pôr o eu em movimento, tudo teria sido inútil; tinha consciência de que a testemunha não é suficiente, mas que a prova de sua grandeza é a capacidade de pôr o sujeito em movimento, ou seja, a razão e a liberdade. Tudo o que queria naquela época – e quer de nós hoje – era justamente o renascimento do eu em cada um de nós, pois Cristo veio justamente para isso, para que o nosso eu renasça. Era a sua constante, quase obsessiva paixão: que tudo aquilo com que nos envolveu se torne nosso. E o ponto-chave é o juízo; é o juízo que torna experiência uma coisa que fazemos.

Mas vimos como temos dificuldade para compreender o que é a experiência e o que é o juízo. Nós sempre dizemos “juízo”, sem nos dar conta de que o estamos dando; por exemplo, não nos damos conta de que dizer “nem isso me basta” é um juízo, ou seja, implicou uma comparação, por mais rápida que tenha sido, entre algo que nos aconteceu e o nosso coração. E, se eu não me dou conta disso, é inútil para a vida. Dizer “vi um homem contente” é, também, um juízo; e dizer “isto corresponde finalmente às exigências do meu eu” é, mais uma vez, um juízo. Nem mesmo nos damos conta de que estar aqui exigiu uma miríade de juízos! Essa redução da experiência, em pleno andamento, nós a vemos, é palpável.

2. Se é assim, temos alguma chance? Temos uma chance, amigos, existe uma chance: partir da experiência. Olhemos juntos – como dissemos há um minuto – para a experiência que vivemos nestes dias. Toda a confusão não foi capaz de evitar que reconhecêssemos a beleza das montanhas, ou dos cantos, ou dos testemunhos, ou a imponência de certos gestos. Nada. Parece pouco dizer isso, mas é muitíssimo, é uma fenda que se abre na confusão: a confusão pode ser vencida, e em alguns momentos, nestes dias e neste ano, nós vivemos essa vitória. Não assistimos apenas a determinadas palestras ou a certas coisas, a uma série de iniciativas com que preenchemos o tempo: vivemos a experiência dessa vitória sobre a confusão. É possível fazer uma experiência que tenha em seu âmago o juízo de reconhecimento a que nós podemos aderir, como aderimos a algo verdadeiro. Pois o juízo – como vimos – não é uma coisa intelectual, para pessoas que complicam a vida, mas é o reconhecimento do que temos bem à frente dos nossos olhos, até a sua implicação última; é a forma humana de relação com a Presença que nos sobrevém. O juízo é uma resposta, é o acontecimento da resposta à provocação da Presença, é a maneira como a razão capta o significado da realidade. Por isso, a falta de juízo equivale à falta do eu, do meu olhar, da minha consciência, e por conseguinte não há conhecimento, apenas reação.

É visível a dificuldade que temos, pois o juízo ainda nos parece um gesto intelectual, que parte do zero, como uma produção autônoma e espontânea do intelecto, não como o contragolpe do ser, que implica desde o início o movimento do eu, despertado pela irrupção de uma outra coisa. E – como vocês podem ver – é essa experiência elementar que nós fizemos nestes dias que Dom Giussani nos propõe. Não é que Dom Giussani tenha algum poço secreto do qual retira as ideias; ele simplesmente é tão leal com a experiência que faz, percebe tão fortemente todos os fatores, é tão homem, está tão presente àquilo que faz, que nos ajuda a reconhecer isso, tanto assim que, se não estivéssemos com ele, provavelmente não tomaríamos consciência do que acontece nesse acontecimento extremamente rápido, nessa unidade. Essa é a companhia que Dom Giussani continua a ser para nós. Mas o que Dom Giussani nos diz é a explicitação, é o momento em que ele toma consciência, e portanto nós também, daquilo que acontece, daquilo que todos experimentamos, se partimos da experiência.

Assim, tenho-me dado conta cada vez mais nestes últimos meses, nos diversos encontros, de que existe uma confusão entre a intenção de seguir e o seguimento real de Dom Giussani. Todos temos a boa intenção de seguir (até estamos aqui). Mas isso não basta, porque uma coisa é a intenção e outra é a comparação cerrada entre o que nós fazemos e o que ele diz, que exige o seguimento.

Isso se esclareceu de um modo evidente para mim quanto uma garota contou como levou a sério o capítulo X de O senso religioso e começou a fazer a comparação: era um espetáculo! Não era uma comparação genérica, “leio o capítulo e depois, no fundo, no instante seguinte, continuo a tomar como ponto de partida o que me dá na cabeça”, que é o que nós fazemos quando nos encontramos aqui depois de ter lido o capítulo; ela tinha realmente começado a fazer uma verificação cerrada entre a maneira como agia e o texto, e lia e relia para ver, para julgar, para fazer a comparação entre a maneira como tinha agido e o que Dom Giussani diz. E ela mesma ficava boquiaberta diante do que estava acontecendo, pois em pouquíssimo tempo tinha percorrido um caminho enorme. E eu me dei conta: quer dizer que nós, muitas vezes, pensamos que estamos seguindo porque temos a intenção de seguir, mas a intenção de seguir não é seguir, é um requisito para seguir, mas não é suficiente. Cada um deve tomar posição diante disso, porque, do contrário, todas as dificuldades que vimos não são superadas; apenas as remetemos para o futuro.

Seguir Dom Giussani é fazer uma experiência humana, ou seja, não apenas provar, mas emitir um juízo. E por que é que Dom Giussani insiste tanto conosco (que somos como todos os outros, empastados da mentalidade mundana como todo o mundo)? Porque percebe que só “a evidência da experiência”[4] pode nos convencer, pode nos ajudar a entender uma outra forma de agir e a não percebê-la como estranha a nós, como se para seguir alguém tivéssemos simplesmente de arrancar a nossa liberdade e a nossa razão. Não. Somente se enxergamos a evidência que aparece na experiência podemos nos surpreender dizendo: “Isso, sim, é humanamente conveniente para mim; isso, sim, é razoável fazer; isso, sim, é que me corresponde”. Do contrário, como sempre acontece, mantemos a intenção de seguir, mas a nossa mentalidade é a de todo o mundo: temos a intenção de seguir Giussani, mas a mentalidade é a mesma de todo o mundo, e temos uma montanha de indícios disso (desde o caso Eluana Englaro até todos os problemas que apareceram nestes dias de confronto, e que são comuns a todos os continentes).

3. Ontem, um de vocês me disse: “Muitos dos nossos amigos não são definidos pelo encontro que fizeram: o lugar a que ‘pertencem’ originalmente e a mentalidade que já tinham define mais o eu deles que o encontro que fizeram”. Dentro desta nossa dificuldade para compreender a necessidade do juízo aparece algo mais profundo, que é uma concepção de fé pela qual esta, apesar de tudo, não é uma experiência, não é uma experiência capaz de incidir. Às vezes, tenho a impressão de que é como se almejássemos que a fé fosse algo semelhante a uma transfusão de sangue, em que o eu fique de fora, algo mecânico. Mas isso é contrário à primeira aula de Dom Giussani! E imaginem a todas as aulas que vieram em seguida! Ou seja, não basta nem mesmo estarmos juntos, não basta a lógica de grupo, porque, como mentalidade, pertencemos a outro lugar.

Então – dizia eu no prefácio que escrevi para Qui e ora, citando Dostoievski -, nessa situação podemos entender a grandeza da pergunta: “‘Um homem culto, um europeu de nossos dias pode crer, crer realmente, na divindade do filho de Deus, Jesus Cristo?’ Talvez ninguém tenha apresentado de um modo mais sintético e peremptório que Dostoievski, em Os irmãos Karamazov, o desafio diante do qual se encontra o cristianismo na modernidade. Dom Giussani teve a coragem de medir forças com esse desafio histórico, radicalizando-o, se possível. De fato, Dom Giussani aposta tudo na capacidade de sua proposta educativa de gerar um tipo de sujeito cristão para quem, ‘mesmo que todos fossem embora – todos! -, quem possui essa dimensão de consciência pessoal (gerada pela fé) não pode deixar de começar tudo de novo sozinho’”[5].

Essa consciência pessoal, essa dimensão de consciência pessoal pode ser descrita como a consciência de pertencer, de pertencer a Cristo. É evidente para Giussani que, se acontecesse o que ele diz – que todos fossem embora -, ninguém poderia apoiar-se numa lógica de grupo. Se a pessoa ficasse sozinha, para poder enfrentar esse desafio precisaria da “passagem da lógica de grupo para a dimensão de consciência pessoal como pertencer”[6]. Pois nós, muitas vezes, em determinados lugares, somos obrigados a começar do princípio sozinhos, ou temos de estar no trabalho sozinhos, ou temos de enfrentar uma série de situações sozinhos; mas será que a pessoa, aí, fica de pé, ou temos de carregar o grupo sempre conosco? É possível gerar uma criatura nova, que tenha uma consciência que nasce do encontro que fez, um sujeito cristão capaz de recomeçar do princípio?

Dom Giussani, que tem tanta consciência do desafio histórico e tanta consciência de nossas reduções da experiência e de nossas reduções da fé – pois essa é a questão -, desafia todas essas resistências (daquela época e de hoje) com o termo “experiência”, para reapresentar o cristianismo em sua originalidade, em sua natureza, em seus aspectos elementares. Por meio da palavra “experiência”, são afirmados e defendidos os elementos essenciais do cristianismo e da fé, contra a redução fideísta-espiritualista e ética.

Como vimos, o ponto de partida da fé é um acontecimento, o encontro com um fato objetivo; não uma doutrina, uma cultura abstrata ou um passado, mas uma presença real, aqui e agora, um fenômeno de humanidade diferente, que é o único que corresponde à natureza do que aconteceu no início. Pensemos em como Dom Giussani nos remete constantemente àquele que será para sempre o cânon do que o cristianismo é: o encontro de João e André. O que eles viveram foi uma experiência porque puderam dizer: “Encontramos o Messias”[7]. Deram um juízo diante daquela excepcionalidade. Há uma aparente desproporção entre o que acontece e esse juízo de excepcionalidade. Por que é possível dar um juízo tão depressa (como dissemos nestes dias diante das montanhas)? Porque, quanto mais é excepcional, mais fácil é dar esse juízo de excepcionalidade; porque, quanto mais é excepcional, mais vêm à tona todas as exigências da minha razão, da minha liberdade (de beleza, de verdade, de justiça), para captar essa excepcionalidade. Justamente porque o cristianismo é um fato objetivo tão excepcional diante de nós, e que exalta o eu, justamente por isso desencadeia toda a criticidade de que falávamos nestes dias, toda a capacidade da razão. É precisamente essa exaltação da razão e da liberdade que demonstra a existência da excepcionalidade (diante do que não é excepcional eu não me perturbo, não nasce nem uma ruga). Em outras palavras, algo se demonstra excepcional porque me move, me agarra e me leva, facilita o juízo para mim, ou seja, exalta o meu eu, pois – e isto é impressionante – o interlocutor dessa excepcionalidade é o coração, não o que eu penso, a minha cultura, as minhas ideias ou tudo o que eu sobreponho, ou seja, a minha confusão. Nada pode impedir o diálogo, o desafio que essa excepcionalidade provoca no coração, eliminando-o por completo. Se não fosse assim, seria inútil estar aqui; teríamos de nos resignar a não poder sair dessa situação.

Olhar para o que aconteceu em nós durante estes dias é o que poderá nos convencer da chance que temos, ou seja, de que é possível a geração de um sujeito próprio se cada um é leal ao acontecimento que lhe permite fazer essa experiência. Essa Presença excepcional interpela o coração, provoca-o, desafia-o, mobiliza toda a nossa humanidade, põe-na em jogo, compromete a nossa razão até o ponto de exigir um juízo de nossa parte. Artificioso seria detê-lo. Sem esse juízo, o encontro não se pode tornar experiência nossa, a adesão da fé não pode ser razoável. “Com efeito, o mesmo gesto com que Deus se torna presente ao homem no acontecimento cristão exalta também a capacidade cognitiva da consciência, ajusta a agudeza do olhar humano para a realidade excepcional que o provoca. Chama-se graça da fé.[8] Expresso de uma forma mais teológica: “A fé é o ‘reconhecimento’ de que Deus se tornou fator da experiência presente. Enquanto ‘reconhecimento’, é um ato da razão, um juízo, não um sentimento ou um estado de espírito. A fé representa a realização da razão humana”[9], tornada possível pela presença contemporânea de Cristo, que se torna experimentável por intermédio de uma realidade humana.

Se não é um juízo, a fé é um espiritualismo ou um sentimentalismo. É uma fé, no fundo, sem motivos adequados, ou seja, não é humana, e fica bem claro que não é humana porque logo cai por terra, não me determina, não incide, porque o meu posicionamento original (a minha tradição religiosa, familiar, cultural ou da tribo) é mais decisivo que a fé. No fim das contas, não existe a possibilidade de um sujeito diferente. Não é que essa excepcionalidade toca você e o deixa como era antes, mas desperta em você todas essas exigências e facilita-lhe o reconhecimento. Por isso, o juízo é o ponto-chave da experiência: essa excepcionalidade foi capaz ou não de despertar o eu com toda a sua capacidade, para chegar até o juízo? Assim, percebemos claramente que não basta a testemunha, mas, ao mesmo tempo, o eu não pode chegar até aí sem a testemunha. Testemunha e juízo não podem ser postos em contraposição, pois a prova dos nove é que a testemunha me desperta (e nisso está toda a concepção autenticamente católica da fé): ou a presença de Cristo é capaz de despertar o eu e de pôr em movimento toda a capacidade humana, para gerar uma criatura nova, ou há em nós simplesmente uma afirmação de Cristo pela qual Ele, mesmo sendo constante e insistentemente afirmado, continua incapaz de mudar o eu. Podemos ver aqui a incidência frequente de uma certa mentalidade protestante. Se a fé não é católica, se não está de acordo com a perfeição que coincide com a natureza do acontecimento tal como este se deu, é inútil, ou seja, podemos ir para casa e não perder mais tempo. É aí, portanto, quando a pessoa percorre esse caminho, que ela registra a conveniência humana, a correspondência desse acontecimento a sua humanidade. Mas nós, mais uma vez, podemos estar diante de fatos imponentes e não caminhar, e no final é como se tudo isso de nada servisse, pois não faz o eu crescer.

4. A prova da fé (essa experiência humana em que o eu inteiro está implicado e envolvido) é a memória. Quero terminar com o olhar de todos nós voltado para esta grande passagem da Escola de Comunidade: “João e André tinham fé, porque tinham certeza de uma Presença experimentável: quando estavam lá, primeiro capítulo de São João, sentados na sua casa, aquela noite, olhando-O falar, era uma certeza de uma Presença experimentável de uma coisa excepcional, o divino numa Presença experimentável. Depois - acrescento - foram para suas casas dormir: André voltou para sua mulher; João, para sua mãe. Voltaram às suas casas, comeram nas suas casas, dormiram nas suas casas, levantaram-se, foram pescar junto aos outros companheiros. Aquilo que tinham visto na tarde anterior dominava a sua cabeça: sim ou não? Sim. Eles O viam? Não. Mas o homem experimenta, faz a experiência de uma presença, não somente quando a toca, nariz com nariz; aliás, este modo de querer experimentar uma presença normalmente funda uma coisa inútil, funda um relacionamento que não dura - como entre todos os rapazes e as moças -, mesmo quando existe, não existe. Pelo contrário, entre o dia anterior e o meio-dia, quando voltaram para casa com as barcas cheias de peixe e se colocaram lá na praia e de novo falavam do dia anterior, o segmento que coloca em relação o dia anterior e o dia depois chama-se memória, e a memória é a continuidade da experiência de um presente, a continuidade da experiência de uma pessoa presente, de uma presença que não tem mais as qualidades e o caráter imediato de quando uma pessoa segura o nariz de outra e puxa, puxa, puxa, ou então segura os cabelos e puxa os cabelos, como as crianças fazem com a mãe; aquele caráter imediato não determina de fato a profundidade e a segurança do relacionamento. Mesmo que não o tivessem visto por três semanas, o desejo predominante daqueles dois era o de reencontrá-lo, porque era claro que era Ele, que Ele era Ele; não sabiam quem fosse, mas era Ele. A memória é a consciência de uma Presença. A respeito dessa Presença é preciso distinguir o seu começo da sua continuidade. Quando começou, viam-se os cabelos, e, sendo que havia vento e os cabelos caíam sobre os olhos, instintivamente a pessoa puxava os cabelos para o lado. Mas no dia seguinte não havia mais o vento e não tinham à sua frente aquele rosto, e mesmo assim era presente, e depois de uma semana aquela Presença ainda era presente, e depois de um mês era ainda presente; se tivessem vivido três anos sem revê-lo, toda a sua vida teria sido dilacerada pelo desejo de rever os cabelos agitados pelo vento: mas aquele era Ele, uma segurança absoluta. O último [...] pensamento que teria vindo à mente daqueles dois, se não O tivessem mais visto por seis meses, teria sido a dúvida de que tivesse sido uma ilusão. Não teria nunca vindo à mente deles que tivesse sido uma ilusão: alguém que O viu assim... impossível que isto viesse à mente [alguém que fez uma experiência como essa... impossível: se nos vem à cabeça que seja apenas uma ilusão, é porque não fizemos essa experiência]. Em vez d’Ele com os cabelos ao vento, em vez de olhá-Lo falar com a boca que se abre e se fecha, Ele chega até você através das nossas presenças, que somos como que as máscaras frágeis, a pele frágil, as máscaras frágeis de algo potente que é Ele e que está dentro, que não sou nem eu, nem você, nem ele, e mesmo assim passa através de mim, passa através de você, passa também através dele, e as coisas de hoje ninguém as diz a você. Não são minhas, são d’Aquele que André e João, naquela tarde, estavam lá a olhar falar; falava, e falava, e, vencendo assim o tempo e o espaço, falou hoje a você; e lhe falará depois de amanhã e daqui a dez anos”[10].

(Traduzido por Durval Cordas)

NOTAS:

[1] Giussani, L. Qui e ora (1984-1985). Milão: Bur, 2009, pp. 269-337.

[2] Giussani, L. Educar é um risco, cit., p. 16.

[3] Id., ibid., pp. 16-17.

[4] Giussani, L. L’avvenimento cristiano. Uomo Chiesa Mondo. Milão: Bur, 2003, p. 56.

[5] Carrón, J. “Passare da una logica di gruppo a una dimensione di coscienza personale”. In: Giussani, L. Qui e ora (1984-1985), cit., p. I. Publicado em português em: Carrón, J. “Presença, aqui e agora”. Trad. Durval Cordas. In: Passos Litterae Communionis, nº 108, setembro de 2009, p. 4.

[6] Giussani, L. Qui e ora (1984-1985), cit., p. 307.

[7] Jo 1,41.

[8] Giussani, L. Educar é um risco, cit., p. 90.

[9] Giussani, L.; Alberto, S.; Prades, J. Generare tracce nella storia del mondo. Milão: Rizzoli, 1998, p. 32.

[10] Giussani, L. É possível viver assim? Trad. Neófita Oliveira e Francesco Tremolada. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2008, pp. 256-258.

© Fraternidade de Comunhão e Libertação para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón