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Apontamentos da Escola de Comunidade com Julián Carrón - 07/10/09

Data: 19/10/2009

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Texto de referência: J. Carrón, “Experiência: o instrumento para um caminho humano”, Assembléia Internacional de Responsáveis de Comunhão e Libertação. La Thuile, agosto de 2009.

 

A vida é uma viagem, mas muitas vezes percebemos que é diferente daquilo que nós imaginamos: “Não imaginava que essa viagem fosse assim”, e percebo que perdi tempo e “então, quero continuar a minha viagem com você”.

Comecemos nosso gesto com dois cantos: Il Viaggio, de Claudio Chieffo e Noi non sappiamo chi era.

 

  • canto “Il viaggio”

  • canto “Noi non sappiamo chi era”

 

Àqueles que estão conectados na Itália, digo que a tentativa que fazemos este ano de Escola de Comunidade em rede quer ser – como já disse na Jornada de Início de Ano – uma ocasião e um exemplo para procurar aprender um método de trabalho sobre o texto, de modo que a fadiga e o empenho que fazemos tenham uma razão adequada para alcançar o objetivo; e o objetivo deste trabalho, deste gesto, é simples: que seja um juízo sobre a experiência, sobre a própria experiência. É evidente uma fadiga maior para aqueles que farão colocações aqui – vocês que estão aqui presentes -, porque precisarão levar em conta esta nova circunstância, tanto no conteúdo quanto na maneira de se colocar, para que todos possam entender; será preciso arriscar-se ainda mais publicamente do que fizemos no ano passado. Para isso, precisamos preparar bem as colocações, para não perder tempo, ser precisos, não se demorar muito, ir no essencial de modo tal que possa ser entendido por todos. Assim, nos ajudamos mais. Quem se colocar, deve fazê-lo não apenas para os presentes, mas também para as pessoas conectadas em toda a Itália; é indispensável, repito, que levemos isso em conta.

Uma outra observação. Devemos ter presente as coordenadas deste início de trabalho porque, como vimos no texto da Assembléia Internacional de Responsáveis, onde retomamos um texto de Giussani sobre a experiência, ela é o método fundamental do desenvolvimento humano, isto é, o instrumento para um caminho humano. Por isso, nos interessa entender exatamente esse método, porque sem aprendê-lo bem não há desenvolvimento humano, não há possibilidade de fazer um caminho. Nos Exercícios da Fraternidade , como todos lembram, explicamos sinteticamente o que é a experiência. O que aconteceu depois? Durante o trabalho, ficou evidente, falando da experiência, as reduções que fazemos dela. Por isso fomos convidados a trabalhar sobre essas duas coisas: a introdução e a palestra do livreto chamada “Experiência: o instrumento para um caminho humano”, tendo presente a Jornada de Início de Ano. Portanto, a Escola de Comunidade insere-se neste percurso e é uma verificação deste trabalho.

Começo com duas perguntas às quais todos os que se colocarem deverão tentar responder através da experiência feita: em que momento, em que situação percebi ter feito verdadeiramente experiência do modo como a descrevemos? A partir do quê me dei conta de ter feito experiência? Faço essas perguntas para tentar nos ajudar a não fazer um discurso sobre a experiência, agora, mas contar os fatos através dos quais nos demos conta de que fizemos uma experiência ou, ao contrário, de não tê-la feito. Porque este é um caminho: quando alguém erra, aprende também ali; o problema é que se dê conta.

Comecemos, então.

 

Vou ler a carta que um amigo escreveu para você. “Caro Julián, escrevo-lhe duas linhas para contar como vão as coisas. Cheguei no fim de julho, muito cansado, destruído por aquilo que acontecia, em resumo, não conseguia mais nem respirar. As férias foram ocasião para retomar fôlego, ou seja, para voltar a trabalhar. Reler a Escola de Comunidade, os Exercícios da Fraternidade, sem o preconceito de que, no fundo, nada pode mudar, relê-los tendo diante dos olhos os acontecimentos que me marcaram neste último ano. Foi, sem dúvida, um ano difícil, mas como não maravilhar-me por aquilo que estava acontecendo dia após dia nesse tempo dedicado ao repouso? A ponto de chegar a dizer: quem me deu essa força para enfrentar o ano passado? Como não dizer obrigado? Uma vez eu disse que a realidade nunca era como eu desejava, mas isso, para mim, hoje, é totalmente falso. Se penso em tudo o que me aconteceu na vida, percebo que na maior parte dos casos a realidade era exatamente como a imaginei, o problema é que depois de um tempo torna-se decepção, não basta mais, preciso de outra coisa, desejo outra coisa. Dar-se conta de que nunca é suficiente, que sempre falta algo, e que graça poder maravilhar-se com isso, maravilhar-se por encontrá-Lo perto a partir desta falta! Neste verão, pela primeira vez, consegui olhar os fatos que aconteceram ou aconteciam e pude dizer Seu nome, não como consequência daquilo que meus olhos viam, mas como co-existente nas coisas e nas situações: experimentar a Sua companhia dessa maneira nunca tinha me acontecido. A partir daí pode acontecer de tudo, mas não me sinto mais sozinho; experimentar dessa maneira a Sua companhia nas coisas que acontecem ou que vejo era, para mim, inimaginável, tanto que quando ouvia outras pessoas falarem sobre isso, na minha cabeça insinuava-se a dúvida se aquilo que meus ouvidos ouviam era possível. Mas que companhia é essa que provoca uma vontade de fazer maior que antes? Quem me faz sentir mais livre nas minhas tentativas de realizar, verdadeiramente livre de qualquer resultado, livre até para errar? E, por fim, como não ficar maravilhado olhando aquilo que acontece agora, depois das férias? A consciência daquilo que se deseja e a desproporção daquilo que se recebe, a ponto de não conseguir mais dizer se um fato é favorável ou desfavorável; todas as vezes que pensei que uma situação era desfavorável, para mim se revelava a mais favorável. Dito isto, devo absolutamente estar atento também em como uso o tempo que me é dado para viver; para viver também é preciso descansar; para fazer memória, para julgar e dar-se conta daquilo que acontece, devo estar descansado senão a instintividade, como por muito tempo me aconteceu, assume o domínio. Com gratidão”.

 

Obrigada, porque essa leitura diz muito bem o que é a experiência porque, como ele diz, “muitas vezes disse que a realidade não era como eu desejava, mas isso era totalmente falso, a realidade muitas vezes, ao contrário, é como eu a imagino”: realiza-se aquilo que tenho na imaginação, na minha cabeça, não é que falta algo (no sentido de que o que imagino deveria se realizar melhor), acontece exatamente como eu tinha imaginado; mas depois de um tempo preciso de outra coisa. A vida não nos coloca um problema quando as coisas não acontecem, mas quando acontecem, quando acontecem como a pessoa deseja, porque então não se pode ficar com raiva da realidade, e emerge muito mais qual é o problema, qual é o desafio: se não fico satisfeito nem mesmo quando as coisas acontecem como eu penso, o que eu desejo? Dar-se conta de que nunca é o bastante, que sempre falta algo, quer dizer, que sempre remete além: que graça maravilhar-se por isso! O que acontece nisso? Que ele parte exatamente do seu relacionamento com o real e que ali, exatamente ali, naquela experiência que faz, é levado a dizer o Seu nome – e maravilhar-se por encontrá-Lo perto, a partir dessa falta” -. Isto era “coexistente” nas coisas e nas situações: não se trata de tornar as coisas e as situações abstratas e pensar em outra coisa, eliminando o sinal, eliminando o real. Não, exatamente ali, como dissemos na Jornada de Início de Ano, exatamente olhando a beleza da mulher, Giacomo Leopardi procurava o “raio divino”. Não é que devemos eliminar a beleza, é que ela está ali, dentro daquilo. Tanto é verdade que se eliminamos isso, o real, o real tão real, não nos remete além. “Experimentar a Sua companhia desse modo nunca tinha me acontecido; pode acontecer de tudo, mas não me sinto mais sozinho”. A partir do quê, se vê que alguém faz experiência? Vocês têm aqui o sinal: a pessoa não se sente mais só, e “experimentar desse modo a Sua companhia nas coisas que acontecem e que se vêem para mim era inimaginável”. O objetivo de uma educação, o objetivo do caminho que estamos começando a fazer, que continuamos a fazer, é este. Não é para eliminar nada, mas descobrir em cada coisa a Sua presença desse modo. Quando ouvimos outros contarem podemos duvidar... Como se vê a mudança? Porque começa a dar-se conta da diferença em relação ao que acontecia antes. Antes, quando alguém lhe contava, você duvidava, porque quando não é uma experiência, prevalece a dúvida. Como é possível ver que se faz experiência? No fato de que não prevalece a dúvida. “E, enfim, como não ficar maravilhado olhando aquilo que acontece agora”? Quando começa a acontecer isso, começo a desejá-lo e me pergunto como uso o meu tempo. Vê-se que é uma experiência tão real que incide até na maneira de usar meu tempo; como alguém que se apaixona, precisa de tempo para uma outra coisa que antes não estava no programa, é tão real que eu preciso de tempo. Para quê? Para fazer memória, para julgar e perceber aquilo que acontece. É um exemplo do que acontece. Li, em Tracce, a entrevista “O respiro da conversão”, de Fabrice Hadjadj, onde ele diz que “é uma pressão do Céu que nos faz esperar uma felicidade maior em relação a este mundo e nos faz experimentar este mundo em sua extrema precariedade”. É essa pressão do Céu, como ele a chama, que nos chama dentro do real a algo maior para o qual fomos feitos.

Vamos em frente.

 

É por gratidão que me coloco esta noite. Queria contar o que aconteceu depois da última Escola de Comunidade que fizemos aqui e como foi o trabalho de dar um juízo que você sugeriu. Digo para aqueles que não estavam: eu me coloquei dizendo que meu pai estava em coma há três semanas e que não entendia essa coisa que dizia à Fraternidade que “as circunstâncias pelas quais Deus nos faz passar são fatores essenciais da nossa vocação, da missão à qual nos chama”, ou melhor, eu entendi como frase mas não me dizia nada porque eu estava esmagada por aquela situação, então a confusão era grande. Então, depois da Escola de Comunidade, como não tinha entendido a chave de leitura que você me deu, vim aqui e lhe disse: “Por que você reconhece Cristo naquilo que acontece e eu não? Eu gostaria de fazer a sua experiência”; e você me disse: “Você gostaria, porém não faz o trabalho”. Foi uma conversa de um minuto, porém fiquei muito provocada, cheguei em casa e pensei: se ele disse que não estou fazendo o trabalho, vou tentar fazê-lo.

Era ou não era verdade?

Era verdade, sim, era absolutamente verdade! Fui para casa e disse: agora vou começar a escrever um diário, assim me obrigo a documentar as coisas que acontecem na minha vida porque eu, normalmente, as deixo passar e não as guardo; com um único pacto: se Carrón diz que é preciso partir da dificuldade e sermos leais conosco mesmos, preciso parar de ter medo daquilo que eu penso, e então, o único pacto seria a lealdade máxima, portanto, espero que ninguém encontre o diário porque fui muito leal.

Não o enviaremos aos jornais, não se preocupe...

No início, apenas aridez e confusão total porque as coisas estavam assim. Depois, os dias foram passando e eu tirei férias, estava com os meus pais; foram dias muito plenos entre terapia intensiva, uma coisa e outra. Uma noite voltei para casa e queria descansar vendo um DVD. Eu o coloquei, mas no segundo capítulo o filme travou e eu disse: que azar! Naquele momento lembrei do trabalho que você sugeriu: “As circunstâncias são fatores, seja você mesma, seja leal”. Eram onze da noite e surpreendi-me pensando: na verdade, efetivamente, se preciso descansar, mais do que ver um filme, talvez seja melhor ir dormir... Um segundo depois, disse a mim mesma: porém, é verdade que a doença de meu pai aconteceu para uma ternura nos meus confrontos, porque decidi ir à Irlanda – iria a trabalho e também, um pouco, para me afastar de uma série de situações -: a doença de meu pai me obrigou por bem e por mal a fazer todo um trabalho, concreto, operativo, de mudança, de pedido, de pergunta. O resultado disso é que eu me vi mais crescida, não esmagada por aquela situação. Eu conseguia olhar para ela, antes de mais nada, conseguia olhar para ela; e, depois, na manhã seguinte eu precisaria encontrar pessoas que eu não tinha muita vontade de ver, estava ali tentando fugir disso e me veio em mente aquele mesmo reconhecimento da noite anterior. Pensei: se é verdade que as circunstâncias são para mim, se elas são a ternura de Deus nos meus confrontos, essa situação também pode sê-lo. Assim, vi-me unida com aquelas pessoas, vi-me fazendo uma experiência bonita. Então, o que eu entendi? Que essa coisa que você disse sobre fazer o trabalho não é uma coisa imposta: você não me disse para chegar a dizer que é Jesus. Para mim, do ponto de vista do método, foi fundamental que você me permitisse ser livre, isto é, que me dissesse: “Olha que você pode fazer essa verificação até o fundo”. E, depois, foi o próprio trabalho de fazê-la. Para mim, então, o que mostra que essa experiência foi verdadeira foi tudo aquilo que aconteceu depois, durante o verão, que agora, por falta de tempo, não contarei. Porém, também naquele verão, aconteceram muitos momentos em que estive verdadeiramente em dificuldade, poderia relacionar todos eles; o que me tocou é que eu, ali, naquelas mesmas situações, pude olhá-las, olhá-las com a mesma liberdade e ternura, e fiquei contente.

 

É preciso partir do incômodo, qualquer que seja a situação. Hadjadj ainda diz: “Intuí que a nossa angústia é o nosso tesouro”. Substituam angústia por incômodo, por circunstância: qualquer coisa que coloquem ali é o nosso tesouro, “ela pode nos dilacerar em um grito vertical. Por outro lado, a origem da nossa angústia não pode vir ao mesmo tempo da morte e do céu. É essa pressão do céu que nos faz esperar uma felicidade maior em relação a este mundo e nos faz experimentar este mundo em sua extrema precariedade [...]. O homem, na sua trágica condição, é maior do que estes super-homens cheios de bem estar e alucinados pelo resultado”. Aqui temos, outra vez, alguém que não tem medo da dificuldade, das circunstâncias; ao contrário, elas são aquilo que o remete além e, então, quando não tem medo disso, a pessoa começa a fazer este percurso e começa a poder olhá-las. Mas precisamos identificar o que nos permite olhar cada circunstância, porque sem nos darmos conta do que nos permite isso e que novidade se introduz no olhar, nós, depois de amanhã, somos encurralados de novo.

A pergunta continua aberta.

 

Queria partir de uma experiência que me aconteceu aqui, uma hora atrás. Falo disso porque me esclareceu mais do que o resto. Cheguei aqui cansado por causa do dia de trabalho, e uma coisa me tocou: que alguém decidiu ajudar na música: maravilha, a música que foi proposta estava me re-equilibrando, me reposicionando em relação ao dia de trabalho e às coisas. Que genial foi a idéia de começar assim o nosso gesto! Porém, ao mesmo tempo, me dava conta de que não conseguia ouvi-la porque muitos aqui estavam entretidos conversando sobre sua experiência, enquanto eu e minha mulher de repente ficamos quietos, porque se eu ouço a música da maneira como me foi proposta há tantos anos aqui, fico quieto. E, ao contrário, todos conversavam e falavam. Então, eu pensava: há uma experiência em ato – eu agora proponho que vocês ouçam a música – e você, ao contrário, acha que faz experiência porque fala sobre ela, mas na verdade você está perdendo a experiência. A experiência de que o Mistério está presente: você está aqui com toda a carga de trabalho, as coisas que quer dizer e, ao contrário, o Mistério lhe fala, diz-lhe uma coisa, e, então, eu vou atrás dele, porque é maior do que a belíssima experiência que eu fiz, que estou fazendo e que quero contar. E isso me remete a uma experiência de acolhida que estou fazendo junto com minha esposa, onde estou diante do Mistério porque não consigo determinar o êxito do meu empenho em relação àquela jovem pessoa. Não sabemos se seu problema será resolvido, porém, confio-me ao Mistério porque sei que é uma coisa boa, então fico com ela, e me parece que isto é experiência.

Por que é experiência? Por que você diz que é experiência?

Antes de mais nada porque me é dada por outro, tem essa característica - enquanto eu sou alguém que projeta o mundo- isso é outro além de mim, tem este sinal forte de não ser um fruto meu.

Por que fazemos experiência? Porque isso que ele diz é uma experiência? Porque, se nós não podemos dizer porque é uma experiência, o eu não cresce e nós não chegamos a um juízo.

 

Comigo, aconteceu uma coisa neste verão que entendi agora. No final de julho estava na casa de um amigo e lhe fiz uma pergunta pessoal. Ele me disse: “De qualquer forma, olhe que Cristo é tudo”. A frase era bonita, porém, ainda não era minha. Depois, no final de agosto aconteceu uma coisa muito dolorosa na minha vida, muito perturbadora e logo que fiquei sabendo, a primeira coisa que me veio em mente, sem nem mesmo pensar no amigo, foi: De qualquer forma, Cristo é tudo. Quer dizer que eu reconheci o relacionamento que me constitui e que me permite olhar as coisas, e faz com que eu não seja esmagada. Porque não sei como essa coisa irá terminar, mas sei que eu tenho um relacionamento que me constitui, que me constitui a cada segundo e que me salvou.

 

Desculpe-me um instante. Se você afirma que antes, quando lhe disseram essa frase, não era sua, não pode dizer – sem me dizer o porquê – que dois meses depois tinha se tornado sua. Porque podemos brincar. Você não era contra aquela frase, a aceitava, apenas disse: “Não era minha”. Então, para que esta frase se tornasse sua, o que aconteceu? Senão, baseado em quê você diz que é verdadeira? É verdadeira porque você mesma a afirma com a sua vontade, com a sua energia, mas não é verdadeira como resultado de uma experiência? Não sei se consigo me explicar. Como já temos a frase pronta, porque devemos fazer um caminho? Deixamos o caminho cheio de buracos: dessa vez você consegue fazê-lo, amanhã a vida lhe esmaga por não sei que razão, e como não fez o percurso, fica ali imobilizada. Como me dizia uma pessoa esta tarde: “Durante anos repeti as coisas que me disseram, como um papagaio”. Não é que a pessoa não lhe disse com toda a boa vontade e com o desejo de dizer uma coisa verdadeira, mas aquelas coisas não são suas! A um certo ponto, acrescentou: “Depois, tudo desmoronou, não restava nada”. Por isso, devemos nos ajudar senão, muitas vezes, depois de anos participando do Movimento nos vemos dizendo a nós mesmos: não fiz um percurso humano. Eu entendo isso muito bem, como lhes disse na Jornada de Início de Ano, porque num certo momento percebi que precisava aprender aquilo que eu achava que já sabia. Nós, por isso, devemos nos dar apenas uma regra: aqui, não devemos dizer uma palavra sem que saibamos perceber na experiência aquilo que dizemos. Bastaria essa lealdade conosco mesmos para que este gesto se tornasse verdadeiramente um caminho. Eu, a um certo ponto, não pude mais suportar dizer as coisas não sabendo o que estava por trás como experiência, me explico? Porque eu comecei a amar o juízo? Porque quando tinha uma preocupação, quando acontecia algo que me deixava perplexo, quando me vinha a ansiedade, o que percebia? Que eu era diferente antes e depois de julgar. Imagine que uma jovem abandonada tenha medo de estar grávida. O que lhe dá certeza? Os conselhos? “Não se preocupe, não é nada grave”... Você pode lhe dar todos os conselhos do universo, mas até que chegue o resultado dos exames (“Não, você não está grávida”), ela não fica tranquila. Todo o resto é uma série de tentativas estúpidas, uma depois da outra para tentar aquietar a ansiedade. Que, um minuto depois, recomeça, me explico? Se a pessoa não percebe o ganho para si, por que deve fazer esse caminho? Seria estúpido, deveríamos ir todos embora. Mas quando alguém começa a entrever o ganho para si ao fazer aquilo que diz Dom Giussani, percebe que julgar é o início da libertação; então, a pessoa não pode dizê-lo apenas como frase, mas sabe do que se trata, sabe que experiência há dentro de uma frase como esta. Como o exemplo da moça que está preocupada se está grávida ou não: percebe que todos os conselhos não conseguem dar nem a sombra da certeza do juízo. E isso permite construir uma certeza, um tijolo após o outro. Ao contrário, se não fazemos assim, como me dizia hoje à tarde aquela pessoa, tudo desmorona, porque nos dizemos muitas coisas que são verdadeiras – não estou introduzindo a suspeita de que a pessoa diz as coisas apenas para repeti-las – mas a um certo ponto não conseguimos entender mais. Me explico? Por isso, você deve olhar agora, para ver se fez uma experiência, se algo se introduziu: primeiro sentia como não sendo meu, agora o senti meu.

 

Queria contar uma coisa que me aconteceu neste verão. Antes de viajar de férias com os adultos, eu e meu marido ficamos com muita raiva de uma família, viajamos irritados e continuamos com muita raiva durante uma semana. Todos os amigos que estavam conosco insistiam para que retomássemos o relacionamento com aquela família e nós não o fazíamos. A um certo ponto, a maior parte dos amigos foram embora e naquela tarde, quando todos tinham partido, fui tomada por um vazio, uma nostalgia grande e disse a mim mesma: se essa pessoa de quem tenho raiva viesse à minha casa para chorar e me desse razões sobre tudo aquilo pelo qual havíamos brigado, eliminaria aquela nostalgia, aquele vazio que eu sinto? A partir daí, para mim, Ele esteve presente, mudou o meu olhar, senti uma ternura grande pela pessoa a quem duas horas antes não dirigia nem uma palavra. Decidi escrever-lhe duas linhas contando o que tinha acontecido.

O que fez você mudar o olhar?

O fato de ter sido sincera em relação àquilo que desejava. Eu, em relação àquela melancolia, àquela nostalgia que sentia, estava muito certa, pela experiência que tinha feito e pelo desejo grande que tinha, de que aquilo que me satisfazia não era que me dessem razões. E, então, pedi Ele. Daí, meu olhar mudou.

Obrigado.

Posso terminar? Porque, para mim, a melhor parte vem agora. Escrevi duas linhas contando à pessoa o percurso que tinha feito e agradecendo-a também por essa raiva, porque tinha sido ocasião para que eu descobrisse a Sua ternura. Entreguei-lhe este bilhete e depois de dois segundos que o havia entregue, ele veio até mim e nos abraçamos comovidos; mas o que mais me tocou, mesmo nos dias que se seguiram, foi que todas as vezes que entrava em contato para falar com sua família, com a qual não trocava nenhuma palavra, meu coração batia mais forte porque a única razão pela qual nós nos falávamos era porque Ele está presente e, então, todas as vezes que entrava em contato com eles, para mim era uma festa, sentia um nó na garganta.

 

Este é um belo exemplo do contrário do que fazemos muitas vezes. Normalmente precisamos esperar que o sentimento mude para retomar um diálogo com o outro. Ao contrário, mudou o juízo sobre o outro. Mudando o olhar, depois, muda o sentimento. Se ele precisasse ter esperado a mudança do sentimento, teria passado as férias inteiras com raiva: além de ter perdido as férias não teria resolvido a questão. Esta é a consequência daquilo que nos ensina Dom Giussani: ele nos oferece um caminho onde, usando a razão da maneira correta, mesmo quando estamos encurralados, podemos imediatamente verificar esta mudança. Mas não como conselho de quem deve agir como “bom” cristão, não. Muda o olhar porque não me corresponde; bastaria esta lealdade com toda a exigência que tenho em mim mesmo, para dar-me conta daquilo que não me responde. Por isso, se cedo àquela exigência que sinto dentro de mim, que experimento dentro de mim – a exigência que tenho de verdade, de bem, de plenitude, de realização -, muda até o sentimento.

 

Na Jornada de Início de Ano, você disse: “Não há experiência enquanto a pessoa não reconhece Deus como implicação última”. Naquele momento, pensei comigo: mas eu já faço isso, eu já O reconheço, e isso me parece simples. Porém, meu problema é que normalmente não consigo responder à pergunta: por que me acontecem certas coisas?

E isso demonstra que você não entendeu a frase.

De fato, eu a entendi depois.

Vêem? Nós dizemos uma frase que achamos que entendemos. E por que um instante depois se vê que não a entendemos? Porque reagimos desse modo e isso quer dizer que não a entendemos.

 

Depois, na segunda-feira fui à escola e recebi a notícia de que o pai de um aluno tinha falecido e eu precisava entrar na classe e explicar Leopardi. Naquele momento refleti: o que digo a eles? Porque precisava dar a notícia aos meninos. Um segundo depois, disse: o que quer dizer Tu para mim? E não tinha nenhuma urgência de colar nada por cima, mas tinha o desejo de descobrir. Então, percebi que quando acontece a experiência como você a definia (o juízo é dizer Tu) – e eu que dizia: eu já sei disso – primeiro, queremos colar nada e depois nos rendemos. De fato, percebi que entrei na classe e era a primeira a ter uma pergunta sobre o fato ocorrido; foi uma aula estupenda. Porém – verdadeiramente – o fato de a aula ter sido estupenda não me conquista tanto quanto o fato de que, ali, eu disse exatamente: é isso que quer dizer julgar!

 

A questão, como vocês viram, é que começamos a poder dizer: é isso o que quer dizer! Mas não como algo extrínseco à experiência, mas porque acontece algo no qual nós vemos a consequência existencial daquela frase. O conhecimento é um acontecimento, dissemos neste verão; a pessoa conhece, entende a consequência, a densidade da frase, a densidade daquilo que estamos dizendo exatamente quando há um acontecimento e então torna-se verdadeiramente algo de seu. E qual é o sinal disso? A mudança, a mudança que acontece. Vimos hoje como o juízo é contemporâneo: emito um juízo e acontece imediatamente algo (a raiva acaba, a confusão acaba). Por isso, se não começamos a perceber a conveniência humana, quem nos fará fazê-lo?

Como testemunho, leio uma carta que um amigo me enviou: “Entrei no Movimento há trinta anos e tive a sorte de conhecer Enzo; anos incríveis nos quais a minha dedicação a ele e ao Movimento foi importante, mas, como compreendo agora, não total. Hoje percebo que a mim sempre bastou estar, gozar daquela Presença e, por isso, doar tanta energia e tanto tempo. Mas o eu, como você diz, não se empenhou em verificá-Lo e por isso, mesmo tendo uma tal testemunha, no decorrer dos anos fui ficando cansado de doar, até parar. Graças a Deus nunca abandonei o Movimento, até porque o que tinha me acontecido era tão grande que não podia negá-lo; mas estava confuso e bloqueado, não sabia mais como recomeçar. Passei anos procurando um caminho meu, esperando a minha realização fundamentalmente do trabalho, tinha conseguido melhorar minhas condições econômicas, mas não conseguia preencher o vazio que depois de um pouco re-emergia, até quando aconteceram vicissitudes desagradáveis em minha vida e, ali, entendi que não podia continuar combatendo e forçando a realidade; e com a consciência dessa necessidade comecei a pedir ajuda aos amigos. Então, reaconteceu o acontecimento porque comecei a reconhecer naqueles amigos a mesma fisionomia de Enzo, exatamente aquilo que, de Enzo, me remetia a Jesus”. Como dizia Dom Giussani: não “como” aconteceu, mas “aquilo” que aconteceu. Continua: “Aquela letícia e aquela paixão pelo ideal tinham feito vibrar as cordas do meu coração e este fato recolocou o eu em movimento”. Sabemos que Ele está presente não porque dizemos o nome de Cristo – diz-se tantas vezes de modo vazio, formal, piedoso – ou porque dizemos certas palavras, como amizade: vê-se que está presente porque acontece isso, e o eu se coloca em movimento. “A partir do dia seguinte comecei a olhar as coisas de uma maneira nova, e isso me deixou sereno, atento àquilo que acontecia, agradecido por aquilo que acontecera; e, a partir daquela noite, a certeza de uma companhia assim na minha vida acabou com a ambigüidade em relação à promessa de um destino bom, mudou minha postura diante das coisas. Pensando no trabalho, não estava mais com raiva, não me preocupava mais com minha situação financeira, a ansiedade e a pretensão desapareceram da minha vida, percebia as circunstâncias como uma oportunidade, os relacionamentos floresceram. É realmente verdade que Cristo faz novas todas as coisas. Percebo uma novidade extraordinária nas coisas habituais: aquilo que antes me esmagava, agora me deixa cansado, mas feliz; enquanto antes me lamentava, hoje canto até a gritar Tu, finalmente Tu; Jesus levou a cabo aquilo que tinha começado. Agora, graças ao acontecimento que acontece de novo sou como uma criança, descubro tudo, e as coisas que estou lendo no livreto da Assembleia Internacional de Responsáveis são como janelas que se escancaram ao sol da manhã; conceber o juízo não como uma análise daquilo que você experimentou ou como o sentimento que você tem no fim, mas como o contragolpe imediato da consciência de que Ele está presente; é uma coisa do outro mundo”.

Sabemos que Cristo está presente porque coloca o eu em ação, e me permite reconhecê-Lo. É um desafio que enche tudo de significado e você, finalmente, é livre. Objetivamente, aumenta cada vez mais o desejo da Sua presença: são traços absolutamente inconfundíveis de algo real, porque isso acontece a quem faz uma experiência real.

Termino lendo outra carta onde, com muita simplicidade, uma amiga conta como todo sábado ia visitar a família da sogra, e fazia a comida, e sempre sentia um aborrecimento por causa disso: “Se somos em tantos, porque eu sempre devo cozinhar?”. De repente, veio a memória, a memória d’Ele; a pessoa pode perceber essa circunstância como algo que, através da dificuldade que sente, remete além. “No último sábado, repetiu-se a mesma situação, suscitando em mim o mesmo inicial aborrecimento, mas de repente me veio a memória de Jesus. Aquela circunstância me pedia para reconhecê-Lo naquele fato em si mesmo banal, e no rosto de minha sogra que me chamava com aquele tom claro e decidido, e precisava decidir: ou continuar inclinada ao aborrecimento ou reconhecer a realidade transparente para mim: para que eu O veja”. Depois, conta um outro episódio sobre o filho, diante do qual emergiu uma pergunta radical: “Quem me confiou meu filho?. E, sabe o que eu experimento? Uma letícia dentro do cansaço e a certeza de não perder nada. É um desafio! Duro, em certos momentos, que manifesta ternura, em outros. Uma verificação contínua a ser feita dentro de cada fator da minha vida e dentro cada decisão tomada. Um desafio necessário através do qual posso dizer: eu sou Tu-que-me-fazes”. Mas que nasce, que urge das vísceras da minha vida, da vida nos aspectos mais banais.

Esta é a promessa que existe atrás de cada banalidade, porque através dessa banalidade Alguém nos chama; a questão é se nós aceitamos esse chamado e sabemos reconhecer naquela banalidade não apenas a reverberação sentimental (me agrada, não me agrada), mas chegamos ao juízo para reconhecer que existe Alguém; e se o abrir-me a esta possibilidade verdadeiramente muda o modo de vivê-la. Essa é a promessa para cada um de nós.

 

  • Gloria

© Fraternidade de Comunhão e Libertação para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón