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Num artigo em “Tempi”, padre Aldo conta um ano de amizade com Marcos e Cleuza Zerbini

Data: 14/12/2009

Quatro mil quilômetros por dia para aprender a viver

Quatro mil quilômetros por dia para aprender a viver

 

Por Aldo Trento

 

Já se passou um ano desde a primeira vez que chegaram, aqui, a Assunção, Marcos e Cleuza Zerbini responsáveis pela Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo (ATST), no Brasil, em 17 de novembro de 2008. Foram convidados por alguns amigos porque padre Julián Carrón, o responsável mundial por Comunhão e Libertação, tinha indicado alguns sinais e alguns testemunhos nos quais confiar para ir ao fundo da essência do cristianismo. Porque o cristianismo se impõe pela graça de um encontro ao qual a liberdade humana adere ao percebê-lo como um acontecimento que corresponde às exigências últimas do coração, as quais ficam evidentes na fome e na sede de felicidade, motor da vida e do nosso destino.

Aquele dia representou, não apenas para mim, mas para todos os simples de coração com os quais divido o dia, o reacontecer daquele fato que, há dois mil anos, mudou a vida de João e André. Havíamos passado dois dias compartilhando nossa realidade e tendo a possibilidade de olhar com a inteligência da fé o quanto o Senhor está fazendo, nos últimos cinco anos, neste canto do mundo, tão longe da confusão do Ocidente. E, como aconteceu para os dois primeiros amigos de Jesus, também para nós aquele encontro marcou nossa existência.

Marcou-a de duas maneiras. Antes de tudo, no plano da possibilidade pessoal: que cada qual descobrisse no interior de uma amizade nova a intensidade de viver a experiência cristã. Experiência possível apenas lá onde existem pessoas que se deixam julgar e se ajudam a julgar tudo a partir da realidade. A amizade que temos vivido, há um ano, é como um ferrão, que não apenas impede de dormir mas, a cada instante, nos provoca a confrontar tudo com as exigências últimas que nos constituem. Tudo significa não apenas as coisas que já por si mesmas, como a dor, nos obrigam a perguntarmos o “por que”, mas também as mais belas como um amanhecer, um entardecer, um horizonte cheio de beleza como aqueles que temos, muitas vezes, contemplado à beira-mar. Foi um ano no qual não teve nem um centímetro quadrado de terra ou palavra que não tenha sido julgado a partir do que acontecia. Isto é um milagre: perceber que o homem não é o fruto de seus antecedentes, seja de que natureza for, nem de seu estado de ânimo, nem da saúde, nem da pior violência, como as crianças violentadas que acolhemos, mas de uma Presença que nos faz neste preciso momento.

Tanto para mim como para Marcos e Cleuza, o que mudou naquele momento a nossa vida, e continua a mudá-la a cada dia, o que nos uniu e continua a unir, num poderoso abraço de amizade, foram duas provocações do Evangelho que Carrón continua a nos repetir e que constituíram o fio condutor da experiência educativa de Dom Giussani: “Prestai bem atenção: mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados pelo meu Pai que está no Céu”. E: “Eu-sou-Tu-que-me-fazes”. Uma amizade, ou nasce desta certeza, ou é apenas um bando de pessoas: é interessante e definitiva apenas se é fruto de uma liberdade humana, que se reconhece como fato, como “Tu-que-me-fazes”. Desde aquele momento, não passei mais do que quinze dias sem encontrá-los: ou eu vou a São Paulo, ou eles vêm a Assunção. Muitas vezes faço quatro mil quilômetros num dia - ida e volta - a fim de estar algumas horas com eles, com padre Julián de La Morena e outros amigos, com o único objetivo de aprender o que quer dizer viver com seriedade a nossa vida, fazer a relação de tudo que acontece, dia a dia, com o nosso coração. E, o fruto desta amizade não é apenas o crescer de nosso “eu”, de uma grande experiência de liberdade mas um olhar de catolicidade que nunca tínhamos experimentado antes. No decorrer de um ano, todo o continente latino-americano se sentiu “contagiado” por este fenômeno, por este “furacão” positivo porque não existe nada tão poderoso para dar uma sacudida no burguesismo do homem quanto uma amizade carregada de dramaticidade.

 

Primavera latino- americana

Faz alguns dias, estivemos juntos no México, convidados pela comunidade de Comunhão e Libertação. O convite não foi apenas para encontrar aqueles amigos, mas também foi determinado pelo fato de que a Universidade Nacional do México - o “templo” no qual por mais de oitenta anos foi proibido pronunciar o nome de Jesus -, graças a alguns rapazes do curso de Sociologia, permitiu que Marcos e Cleuza pudessem dar uma conferência, na faculdade de Ciências Políticas que tinha como tema “O nome do desenvolvimento do homem é Jesus Cristo”. Uma coisa do outro mundo para quem conhece a história do México, de sua Universidade e, em particular, desse curso. A aula magna estava quase lotada. Os adultos estavam admirados porque, conhecendo o quanto foi dramática para os cristãos a história desse país, com milhares de mártires, nunca teriam podido imaginar esse milagre. Admiração e preocupação acompanharam todo o encontro. Admiração porque era evidente do que é possível uma companhia vivida seriamente e focalizada no destino do homem. Preocupação porque, a cada rumor estranho, tínhamos medo de um protesto por parte dos demais estudantes e professores. Mas, a Virgem de Guadalupe velou pelo evento que foi um sucesso.

Por outro lado, apenas uma semana antes, tinha acontecido a mesma coisa na Universidade Maçônica de La Plata (Argentina), também com Marcos e Cleuza. Diante de um público que lotava a aula magna, muito atento apesar de culturalmente distante, tiveram a possibilidade de afirmar, com o entusiasmo que os caracteriza, que o nome de tal desenvolvimento humano é Jesus cristo. Em La Plata, como no México, o cristianismo finalmente saiu da sacristia para entrar nos templos da cultura dominante, a mesma cultura ideológica que continua a sonhar utopias como a do socialismo do século XXI.

Mais uma vez, ficou evidente que, diante de uma experiência, tal resistência ideológica se torna impotente e acaba por encontrar-se no silêncio do nada. É como se, a cada dia, esta amizade que estremece o continente latino-americano permitisse aos simples de coração, mesmo que ateus, dizer aquilo que o maior jornalismo do Paraguai, o judeu agnóstico Humberto Rubin, afirmou durante um programa de TV realizado na nossa clínica Divina Providência São Ricardo Pampuri: “Se aquilo que vi é Deus, também eu posso crer n’Ele”. Festejamos um ano daquele dia, daquela provocação, “eu-sou-Tu-que-me-fazes” e parece que não apenas nós, mas também o ar que respiramos está diferente. Sinceramente, agora começo a compreender o que dizia João Paulo II quando falava da América Latina como do continente de esperança para a Igreja. A esperança é um fato visível, é um “já”, um “já” que cotidianamente se multiplica graças a uma companhia de amigos que levam a sério a herança de monsenhor Giussani, seguindo padre Carrón como filhos. Mais um exemplo de como vive e muda o mundo quando é vivido como uma Presença que acontece agora e com a qual tudo se relaciona. E, só quem vive como um filho, e não como um discípulo, experimenta esta beleza que é a nova primavera deste grande continente.

 

(artigo publicado na revista italiana Tempi no dia 3 de dezembro de 2009)

 

 

© Fraternidade de Comunhão e Libertação para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón