Carta Pastoral de 19 de março de 2010
Carta Pastoral de 19 de março de 2010
1. Amados Irmãos e Irmãs da Igreja na Irlanda, é
com grande preocupação que vos escrevo como Pastor da Igreja universal. Como
vós, fiquei profundamente perturbado com as notícias dadas sobre o abuso de
crianças e jovens vulneráveis da parte de membros da Igreja na Irlanda,
sobretudo de sacerdotes e religiosos. Não posso deixar de partilhar o pavor e a
sensação de traição que muitos de vós experimentastes ao tomar conhecimento
destes atos pecaminosos e criminais e do modo como as autoridades da Igreja na
Irlanda os enfrentaram.
Como sabeis, convidei recentemente os bispos
irlandeses para um encontro aqui em Roma a fim de referir sobre o modo como
trataram estas questões no passado e indicar os passos que empreenderam para
responder a esta grave situação. Juntamente com alguns altos Prelados da Cúria
Romana ouvi quanto tinham para dizer, quer individualmente quer em grupo,
enquanto propunham uma análise dos erros cometidos e das lições aprendidas, e
uma descrição dos programas e dos protocolos hoje existente. As nossas reflexões
foram francas e construtivas. Alimento a confiança de que, como resultado, os
bispos se encontrem agora numa posição mais forte para levar por diante a tarefa
de reparar as injustiças do passado e para enfrentar as temáticas mais amplas
relacionadas com o abuso dos menores segundo modalidades conformes com as
exigências da justiça e com os ensinamentos do Evangelho.
2. Por meu lado, considerando a gravidade destas
culpas e a resposta muitas vezes inadequada que lhes foi reservada da parte das
autoridades eclesiásticas no vosso país,, decidi escrever esta Carta Pastoral
para vos expressar a minha proximidade, e para vos propor um caminho de cura, de
renovação e de reparação.
Na realidade, como muitos no vosso país revelaram,
o problema do abuso dos menores não é específico nem da Irlanda nem da Igreja.
Contudo a tarefa que agora tendes à vossa frente é enfrentar o problema dos
abusos que se verificaram no âmbito da comunidade católica irlandesa e de o
fazer com coragem e determinação. Ninguém pense que esta dolorosa situação se
resolverá em pouco tempo. Foram dados passos em frente positivos, mas ainda
resta muito para fazer. É preciso perseverança e oração, com grande confiança na
força restabelecedora da graça de Deus.
Ao mesmo tempo, devo expressar também a minha
convicção de que, para se recuperar desta dolorosa ferida, a Igreja na Irlanda
deve em primeiro lugar reconhecer diante do Senhor e diante dos outros, os
graves pecados cometidos contra jovens indefesos. Esta consciência, acompanhada
de sincera dor pelo dano causado às vítimas e às suas famílias, deve levar a um
esforço concentrado para garantir a proteção dos jovens em relação a semelhantes
crimes no futuro.
Enquanto enfretais os desafios deste momento,
peço-vos que vos recordeis da «rocha de que fostes talhados» (Is 51, 1).
Refleti sobre as contribuições generosas, com frequência heróicas, oferecidas à
Igreja e à humanidade como tal pelas passadas gerações de homens e mulheres
irlandeses, e deixai que isto gere impulso para um honesto auto-exame e um
convicto programa de renovação eclesial e individual. A minha oração é por que,
assistida pela intercessão dos seus muitos santos e purificada pela penitência,
a Igreja na Irlanda supere a presente crise e volte a ser uma testemunha
convincente da verdade e da bondade de Deus onipotente, manifestadas no seu
Filho Jesus Cristo.
3. Historicamente os católicos da Irlanda
demonstraram-se uma grande força de bem quer na pátria quer fora. Monges
célticos, como São Colombano, difundiram o Evangelho na Europa Ocidental
lançando as bases da cultura monástica medieval. Os ideais de santidade, de
caridade e de sabedoria transcendente que derivam da fé cristã, encontraram
expressão na construção de igrejas e mosteiros e na instituição de escolas,
bibliotecas e hospitais que consolidaram a identidade espiritual da Europa.
Aqueles missionários irlandeses tiraram a sua força e inspiração da fé sólida,
da guia forte e dos comportamentos morais retos da Igreja na sua terra natal.
A partir do século XVI, os católicos na Irlanda
sofreram um longo período de perseguição, durante o qual lutaram para manter
viva a chama da fé em circunstâncias perigosas e difíceis. Santo Oliver Plunkett,
o Arcebispo mártir de Armagh, é o exemplo mais famoso de uma multidão de
corajosos filhos e filhas da Irlanda dispostos a dar a própria vida pela
fidelidade ao Evangelho. Depois da Emancipação Católica, a Igreja teve a
liberdade de crescer de novo. Famílias e inúmeras pessoas que tinham preservado
a fé durante os tempos das provações tornaram-se a centelha de um grande
renascimento do catolicismo irlandês no século XIX. A Igreja forneceu
escolarização, sobretudo aos pobres, e isto deu uma grande contribuição à
sociedade irlandesa. Um dos frutos das novas escolas católicas foi um aumento de
vocações: gerações de sacerdotes, irmãs e irmãos missionários deixaram a pátria
para servir em todos os continentes, sobretudo no mundo de língua inglesa. Foram
admiráveis não só pela vastidão do seu número, mas também pela robustez da fé e
pela solidez do seu empenho pastoral. Muitas dioceses, sobretudo em África,
América e Austrália, beneficiaram da presença de clero e religiosos irlandeses
que anunciaram o Evangelho e fundaram paróquias, escolas e universidades,
clínicas e hospitais, que serviram tanto os católicos, como a sociedade em
geral, com atenção especial às necessidades dos pobres.
Em quase todas as famílias da Irlanda houve alguém
– um filho ou uma filha, uma tia ou um tio – que deu a própria vida à Igreja.
Justamente as famílias irlandesas têm em grande estima e afeto os seus
queridos, que ofereceram a própria vida a Cristo, partilhando o dom da fé com
outros e atualizando-a num serviço amoroso a Deus e ao próximo.
4. Contudo, nos últimos decênios a Igreja no vosso
país teve que se confrontar com novos e graves desafios à fé que surgiram da
rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Verificou-se uma
mudança social muito rápida, que muitas vezes atingiu com efeitos hostis a
tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos. Com
frequência as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e a tornam
capaz de crescer, como por exemplo a confissão frequente, a oração quotidiana e
os ritos anuais, não foram atendidas. Determinante foi também neste período a
tendência, até da parte de sacerdotes e religiosos, para adotar modos de
pensamento e de juízo das realidades seculares sem referência suficiente ao
Evangelho. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II por vezes
foi mal compreendido e na realidade, à luz das profundas mudanças sociais que se
estavam a verificar, não era fácil avaliar o modo melhor de o realizar. Em
particular, houve uma tendência, ditada por reta intenção mas errada, a evitar
abordagens penais em relação a situações canônicas irregulares. É neste contexto
geral que devemos procurar compreender o desconcertante problema do abuso sexual
dos jovens, que contribuiu em grande medida para o enfraquecimento da fé e para
a perda do respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.
Só examinando com atenção os numerosos elementos
que deram origem à crise atual é possível empreender uma diagnose clara das
suas causas e encontrar remédios eficazes. Certamente, entre os fatores que para
ela contribuíram podemos enumerar: procedimentos inadequados para determinar a
idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa; insuficiente
formação humana, moral, intelectual e espiritual nos seminários e nos
noviciados; uma tendência na sociedade a favorecer o clero e outras figuras com
autoridade e uma preocupação inoportuna pelo bom nome da Igreja e para evitar os
escândalos, que levaram como resultado à malograda aplicação das penas canônicas
em vigor e à falta da tutela da dignidade de cada pessoa. É preciso agir com
urgência para enfrentar estes fatores, que tiveram consequências tão trágicas
para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho
a tal ponto, ao qual nem sequer séculos de perseguição não tinham chegado.
5. Em diversas ocasiões desde a minha eleição para
a Sé de Pedro, encontrei vítimas de abusos sexuais, assim como estou disponível
a fazê-lo no futuro. Detive-me com elas, ouvi as suas vicissitudes, tomei nota
do seu sofrimento, rezei com e por elas. Precedentemente no meu pontificado, na
preocupação por enfrentar este tema, pedi aos Bispos da Irlanda, por ocasião da
visita ad limina de 2006, que «estabelecessem a verdade de quanto
aconteceu no passado, tomassem todas as medidas adequadas para evitar que se
repita no futuro, garantissem que os princípios de justiça sejam plenamente
respeitados e, sobretudo, curassem as vítimas e quantos são atingidos por estes
crimes abnormes» (Discurso aos Bispos da Irlanda, 28 de Outubro de 2006).
Com esta Carta, pretendo exortar todos
vós, como povo de Deus na Irlanda, a refletir sobre as feridas infligidas ao
corpo de Cristo, sobre os remédios, por vezes dolorosos, necessários para as
atar e curar, e sobre a necessidade de unidade, de caridade e de ajuda recíproca
no longo processo de restabelecimento e de renovação eclesial. Dirijo-me agora a
vós com palavras que me vêm do coração, e desejo falar a cada um de vós
individualmente e a todos como irmãos e irmãs no Senhor.
6. Às vítimas de abuso e às suas famílias
Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo
desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa
confiança e violada a vossa dignidade. Muitos de vós experimentastes que, quando
éreis suficientemente corajosos para falar de quanto tinha acontecido, ninguém
vos ouvia. Quantos de vós sofrestes abusos nos colégios deveis ter compreendido
que não havia modo de evitar os vossos sofrimentos. É compreensível que vos seja
difícil perdoar ou reconciliar-vos com a Igreja. Em seu nome expresso
abertamente a vergonha e o remorso que todos sentimos. Ao mesmo tempo peço-vos
que não percais a esperança. É na comunhão da Igreja que encontramos a pessoa de
Jesus Cristo, ele mesmo vítima de injustiça e de pecado. Como vós, ele ainda tem
as feridas do seu injusto padecer. Ele compreende a profundeza dos vossos
padecimentos e o persistir do seu efeito nas vossas vidas e nos relacionamentos
com os outros, incluídas as vossas relações com a Igreja. Sei que alguns de vós
têm dificuldade até de entrar numa igreja depois do que aconteceu. Contudo, as
mesmas feridas de Cristo, transformadas pelos seus sofrimentos redentores, são
os instrumentos graças aos quais o poder do mal é infringido e nós renascemos
para a vida e para a esperança. Creio firmemente no poder restaurador do seu
amor sacrifical – também nas situações mais obscuras e sem esperança – que traz
a libertação e a promessa de um novo início.
Dirigindo-me a vós como pastor, preocupado pelo
bem de todos os filhos de Deus, peço-vos com humildade que reflitais sobre
quanto vos disse. Rezo a fim de que, aproximando-vos de Cristo e participando na
vida da sua Igreja – uma Igreja purificada pela penitência e renovada na
caridade pastoral – possais redescobrir o amor infinito de Cristo por todos vós.
Tenho confiança em que deste modo sereis capazes de encontrar reconciliação,
profunda cura interior e paz.
7. Aos sacerdotes e aos religiosos que abusaram
dos jovens
Traístes a confiança que os jovens inocentes e os
seus pais tinham em vós. Por isto deveis responder diante de Deus onipotente,
assim como diante de tribunais devidamente constituídos. Perdestes a estima do
povo da Irlanda e lançastes vergonha e desonra sobre os vossos irmãos. Quantos
de vós sois sacerdotes violastes a santidade do sacramento da Ordem Sagrada, no
qual Cristo se torna presente em nós e nas nossas ações. Juntamente com o enorme
dano causado às vítimas, foi perpetrado um grande dano à Igreja e à percepção
pública do sacerdócio e da vida religiosa.
Exorto-vos a examinar a vossa consciência, a
assumir a vossa responsabilidade dos pecados que cometestes e a expressar com
humildade o vosso pesar. O arrependimento sincero abre a porta ao perdão de Deus
e à graça do verdadeiro emendamento. Oferecendo orações e penitências por
quantos ofendestes, deveis procurar reparar pessoalmente as vossas ações. O
sacrifício redentor de Cristo tem o poder de perdoar até o pecado mais grave e
de obter o bem até do mais terrível dos males. Ao mesmo tempo, a justiça de Deus
exige que prestemos contas das nossas ações sem nada esconder. Reconhecei
abertamente a vossa culpa, submetei-vos às exigências da justiça, mas não
desespereis da misericórdia de Deus.
8. Aos pais
Ficastes profundamente transtornados ao tomar
conhecimento das coisas terríveis que tiveram lugar naquele que deveria ter sido
o ambiente mais seguro para todos. No mundo de hoje não é fácil construir um lar
doméstico e educar os filhos. Eles merecem crescer num ambiente seguro, amados e
queridos, com um forte sentido da sua identidade e do seu valor. Têm direito a
ser educados nos valores morais autênticos, radicados na dignidade da pessoa
humana, a serem inspirados pela verdade da nossa fé católica e a aprender modos
de comportamento e de ação que os levem a uma sadia estima de si e à felicidade
duradoura. Esta tarefa nobre e exigente está confiada em primeiro lugar a vós,
seus pais. Exorto-vos a fazer a vossa parte para garantir a melhor cura possível
dos jovens, quer em casa quer na sociedade em geral, enquanto que a Igreja, por
seu lado, continua a pôr em prática as medidas adotadas nos últimos anos para
tutelar os jovens nos ambientes paroquiais e educativos. Enquanto dais
continuidade às vossas importantes responsabilidades, certifico-vos de que estou
próximo de vós e que vos dou o apoio da minha oração.
9. Aos meninos e aos jovens da Irlanda
Desejo oferecer-vos uma particular palavra de
encorajamento. A vossa experiência de Igreja é muito diversa da que fizeram os
vossos pais e avós. O mundo mudou muito desde quando eles tinham a vossa idade.
Não obstante, todos, em cada geração, estão chamados a percorrer o mesmo caminho
da vida, sejam quais forem as circunstâncias. Todos estamos escandalizados com
os pecados e as falências de alguns membros da Igreja, sobretudo de quantos
foram escolhidos de modo especial para guiar e servir os jovens. Mas é na
Igreja que encontrareis Jesus Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf.
Hb 13, 8). Ele ama-vos e ofereceu-se a si próprio na Cruz por vós.
Procurai uma relação pessoal com ele na comunhão da sua Igreja, porque ele nunca
trairá a vossa confiança! Só ele pode satisfazer as vossas expectativas mais
profundas e conferir às vossas vidas o seu significado mais pleno orientando-as
para o serviço ao próximo. Mantende o olhar fixo em Jesus e na sua bondade e
protegei no vosso coração a chama da fé. Juntamente com os vossos irmãos
católicos na Irlanda olho para vós a fim de que sejais discípulos fiéis do nosso
Deus e contribuais com o vosso entusiasmo e com o vosso idealismo tão
necessários para a reconstrução e para a renovação da nossa amada Igreja.
10. Aos sacerdotes e aos religiosos da Irlanda
Todos nós estamos a sofrer como consequência dos
pecados dos nossos irmãos que traíram uma ordem sagrada ou não enfrentaram de
modo justo e responsável as acusações de abuso. Perante o ultraje e a indignação
que isto causou, não só entre os leigos mas também entre vós e as vossas
comunidades religiosas, muitos de vós sentis-vos pessoalmente desanimados e
também abandonados. Além disso, estou consciente de que aos olhos de alguns sois
culpados por associação, e considerados como que de certo modo responsáveis
pelos delitos de outros. Neste tempo de sofrimento, desejo reconhecer-vos a
dedicação da vossa vida de sacerdotes e de religiosos e dos vossos apostolados,
e convido-vos a reafirmar a vossa fé em Cristo, o vosso amor à sua Igreja e a
vossa confiança na promessa de redenção, de perdão e de renovação interior do
Evangelho. Deste modo, demonstrareis a todos que onde abunda o pecado,
superabunda a graça (cf. Rm 5, 20).
Sei que muitos de vós estais desiludidos,
transtornados e encolerizados pelo modo como estas questões foram tratadas por
alguns dos vossos superiores. Não obstante, é essencial que colaboreis de perto
com quantos têm a autoridade e que vos comprometais para fazer com que as
medidas adotadas para responder à crise sejam verdadeiramente evangélicas,
justas e eficazes. Sobretudo, exorto-vos a tornar-vos cada vez mais claramente
homens e mulheres de oração, seguindo com coragem o caminho da conversão, da
purificação e da reconciliação. Deste modo, a Igreja na Irlanda haurirá nova
vida e vitalidade do vosso testemunho ao poder redentor do Senhor tornado
visível na vossa vida.
11. Aos meus irmãos bispos
Não se pode negar que alguns de vós e dos vossos
predecessores falhastes, por vezes gravemente, na aplicação das normas do
direito canônico codificado há muito tempo sobre os crimes de abusos de jovens.
Foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações. Compreendo como era
difícil lançar mão da extensão e da complexidade do problema, obter informações
fiáveis e tomar decisões justas à luz de conselhos divergentes de peritos.
Contudo, deve-se admitir que foram cometidos graves erros de juízo e que se
verificaram faltas de governo. Tudo isto minou seriamente a vossa credibilidade
e eficiência. Aprecio os esforços que fizestes para remediar os erros do passado
e para garantir que não se repitam. Além de pôr plenamente em prática as normas
do direito canônico ao enfrentar os casos de abuso de jovens, continuai a
cooperar com as autoridades civis no âmbito da sua competência. Claramente, os
superiores religiosos devem fazer o mesmo. Também eles participaram em recentes
encontros aqui em Roma destinados a estabelecer uma abordagem clara e coerente
destas questões. É obrigatório que as normas da Igreja na Irlanda para a tutela
dos jovens sejam constantemente revistas e atualizadas e que sejam aplicadas de
modo total e imparcial em conformidade com o direito canônico.
Só uma ação decidida levada em frente com total
honestidade e transparência poderá restabelecer o respeito e a benquerença dos
Irlandeses em relação à Igreja à qual consagramos a nossa vida. Isto deve
brotar, antes de tudo, do exame de vós próprios, da purificação interior e da
renovação espiritual. O povo da Irlanda espera justamente que sejais homens de
Deus, que sejais santos, que vivais com simplicidade, que procureis todos os
dias a conversão pessoal. Para ele, segundo a expressão de Santo Agostinho, sois
bispos; contudo estais chamados a ser com eles seguidores de Cristo (cf.
Discurso 340, 1). Exorto-vos portanto a renovar o vosso sentido de
responsabilidade diante de Deus, a crescer em solidariedade com o vosso povo e a
aprofundar a vossa solicitude pastoral por todos os membros da vossa grei. Em
particular, sede sensíveis à vida espiritual e moral de cada um dos vossos
sacerdotes. Sede um exemplo com as vossas próprias vidas, estai-lhes próximos,
ouvi as suas preocupações, oferecei-lhes encorajamento neste tempo de
dificuldades e alimentai a chama do seu amor a Cristo e o seu compromisso no
serviço dos seus irmãos e irmãs.
Também os leigos devem ser encorajados a fazer a
sua parte na vida da Igreja. Fazei com que sejam formados de modo que possam
dizer a razão, de maneira articulada e convincente, do Evangelho na sociedade
moderna (cf. 1 Pd 3, 15), e cooperem mais plenamente na vida e na missão
da Igreja. Isto, por sua vez, ajudar-vos-á a ser de novo guias e testemunhas
credíveis da verdade redentora de Cristo.
12. A todos os fiéis da Irlanda
A experiência que um jovem faz da Igreja deveria
dar sempre fruto num encontro pessoal e vivificante com Jesus Cristo numa
comunidade que ama e que oferece alimento. Neste ambiente, os jovens devem ser
encorajados a crescer até à sua plena estatura humana e espiritual, a aspirar
por ideais nobres de santidade, de caridade e de verdade e a inspirar-se nas
riquezas de uma grande tradição religiosa e cultural. Na nossa sociedade cada
vez mais secularizada, na qual também nós cristãos muitas vezes temos dificuldade
em falar da dimensão transcendente da nossa existência, precisamos de encontrar
novos caminhos para transmitir aos jovens a beleza e a riqueza da amizade com
Jesus Cristo na comunhão da sua Igreja. Ao enfrentar a presente crise, as
medidas para se ocupar de modo justo de cada um dos crimes são essenciais, mas
sozinhas não são suficientes: há necessidade de uma nova visão para inspirar a
geração atual e as futuras a fazer tesouro do dom da nossa fé comum. Caminhando
pela via indicada pelo Evangelho, observando os mandamentos e conformando a
nossa vida de maneira cada vez mais próxima com a pessoa de Jesus Cristo, fareis
a experiência da renovação profunda da qual hoje há uma urgente necessidade.
Convido-vos a todos a perseverar neste caminho.
13. Amados irmãos e irmãs em Cristo, é com
profunda preocupação por todos vós neste tempo de sofrimento, no qual a
fragilidade da condição humana foi tão claramente revelada, que desejei
oferecer-vos estas palavras de encorajamento e de apoio. Espero que as acolhais
como um sinal da minha proximidade espiritual e da minha confiança na vossa
capacidade de responder aos desafios do momento atual tirando renovada
inspiração e força das nobres tradições da Irlanda de fidelidade ao Evangelho,
de perseverança na fé e de firmeza na consecução da santidade. Juntamente com
todos vós, rezo com insistência para que, com a graça de Deus, as feridas que
atingiram muitas pessoas e famílias possam ser curadas e que a Igreja na Irlanda
possa conhecer uma época de renascimento e de renovação espiritual.
14. Desejo propor-vos algumas iniciativas
concretas para enfrentar a situação. No final do meu encontro com os Bispos da
Irlanda, pedi que a Quaresma deste ano fosse considerada como tempo de oração
para uma efusão da misericórdia de Deus e dos dons de santidade e de força do
Espírito Santo sobre a Igreja no vosso país. Agora convido todos vós a dedicar
as vossas penitências da sexta-feira, durante todo o ano, de agora até à Páscoa
de 2011, por esta finalidade. Peço-vos que ofereçais o vosso jejum, a vossa
oração, a vossa leitura da Sagrada Escritura e as vossas obras de misericórdia
para obter a graça da cura e da renovação para a Igreja na Irlanda. Encorajo-vos
a redescobrir o sacramento da Reconciliação e a valer-vos com mais frequência da
força transformadora da sua graça.
Deve ser dedicada também particular atenção à
adoração eucarística, e em cada diocese deverão haver igrejas ou capelas
reservadas especificamente para esta finalidade. Peço que as paróquias, os
seminários, as casas religiosas e os mosteiros organizem tempos para a adoração
eucarística, de modo que todos tenham a possibilidade de participar deles. Com
oração fervorosa diante da presença real do Senhor, podeis fazer a reparação
pelos pecados de abuso que causaram tantos danos, e ao mesmo tempo implorar a
graça de uma renovada força e de um sentido da missão mais profundo por parte de
todos os bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis.
Tenho esperança em que este programa levará a um
renascimento da Igreja na Irlanda na plenitude da própria verdade de Deus,
porque é a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 32).
Além disso, depois de me ter consultado e rezado
sobre a questão, tenciono anunciar uma Visita Apostólica a algumas dioceses da
Irlanda, assim como a seminários e congregações religiosas. A Visita propõe-se
ajudar a Igreja local no seu caminho de renovação e será estabelecida em
cooperação com as repartições competentes da Cúria Romana e com a Conferência
Episcopal Irlandesa. Os pormenores serão anunciados no devido momento.
Além disso proponho que se realize uma Missão a
nível nacional para todos os bispos, sacerdotes e religiosos. Alimento a
esperança de que, haurindo da competência de peritos pregadores e organizadores
de retiros quer da Irlanda como de outras partes, e reexaminando os documentos
conciliares, os ritos litúrgicos da ordenação e da profissão e os recentes
ensinamentos pontifícios, alcanceis um apreço mais profundo das vossas
respectivas vocações, de modo a redescobrir as raízes da vossa fé em Jesus
Cristo e a beber abundantemente nas fontes da água viva que ele vos oferece
através da sua Igreja.
Neste Ano dedicado aos Sacerdotes, recomendo-vos
de modo muito particular a figura de São João Maria Vianney, que teve uma
compreensão tão rica do mistério do sacerdócio. «O sacerdote, escreveu, possui a
chave dos tesouros do céu: é ele quem abre a porta, é ele o dispensador do bom
Deus, o administrador dos seus bens». O cura d’Ars compreendeu bem como é
grandemente abençoada uma comunidade quando é servida por um sacerdote bom e
santo. «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o tesouro maior
que o bom Deus pode dar a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da
misericórdia divina». Por intercessão de São João Maria Vianney possa o
sacerdócio na Irlanda retomar vida e a inteira Igreja na Irlanda crescer na
estima do grande dom do ministério sacerdotal.
Aproveito esta ocasião para agradecer desde já a
quantos se comprometerem no empenho de organizar a Visita Apostólica e a Missão,
assim como os tantos homens e mulheres que em toda a Irlanda já se comprometeram
pela tutela dos jovens nos ambientes eclesiásticos. Desde quando a gravidade e a
extensão do problema dos abusos sexuais dos jovens em instituições católicas
começou a ser plenamente compreendido, a Igreja desempenhou uma grande
quantidade de trabalho em muitas partes do mundo, a fim de o enfrentar e
remediar. Enquanto não se deve poupar esforço algum para melhorar e atualizar
procedimentos já existentes, encoraja-me o fato de que as práticas de tutela em
vigor, adotadas pelas Igrejas locais, são consideradas, nalgumas partes do
mundo, um modelo que deve ser seguido por outras instituições.
Desejo concluir esta Carta com uma especial
Oração pela Igreja na Irlanda, que vos envio com o cuidado que um pai tem
pelos seus filhos e com o afeto de um cristão como vós, escandalizado e ferido
por quanto aconteceu na nossa amada Igreja. Ao utilizardes esta oração nas
vossas famílias, paróquias e comunidades, que a Bem-Aventurada Virgem Maria vos
proteja e vos guie pelo caminho que conduz a uma união mais estreita com o seu
Filho, crucificado e ressuscitado. Com grande afeto e firme confiança nas
promessas de Deus, concedo de coração a todos vós a minha Bênção Apostólica em
penhor de força e paz no Senhor.
Vaticano, 19 de Março de 2010, Solenidade de
São José
Benedictus PP. XVI
ORAÇÃO
PELA IGREJA NA IRLANDA
Deus dos nossos pais,
Renova-nos na fé que é para nós vida e salvação
na esperança que promete perdão e renovação interior,
na caridade que purifica e abre os nossos corações
para te amar, e em ti, amar todos os nossos irmãos e irmãs.
Senhor Jesus Cristo
possa a Igreja na Irlanda renovar o seu milenário compromisso
na formação dos nossos jovens no caminho da verdade,
da bondade, da santidade e do serviço generoso à sociedade.
Espírito Santo, consolador, advogado e guia,
inspira uma nova primavera de santidade e de zelo apostólico
para a Igreja na Irlanda.
Possa a nossa tristeza e as nossas lágrimas
o nosso esforço sincero por corrigir os erros do passado,
e o nosso firme propósito de correção,
dar abundantes frutos de graça
para o aprofundamento da fé
nas nossas famílias, paróquias, escolas e associações,
e para o progresso espiritual da sociedade irlandesa,
e para o crescimento da caridade, da justiça, da alegria
e da paz, na inteira família humana.
A ti, Trindade,
com plena confiança na amorosa proteção de Maria,
Rainha da Irlanda, nossa Mãe,
e de São Patrício, de Santa Brígida e de todos os santos,
recomendamos a nós próprios, os nossos jovens,
e as necessidades da Igreja na Irlanda.
Amém.
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