A obra de um povo
A obra de um povo
A provocação de María
Zambrano. Os testemunhos do casal Zerbini. E, depois, encontros, exposições,
concertos de música... Assim, a última edição da quermesse espanhola mostrou o
que é uma “presença original não reativa”
por José Luis Restán
Mas não é um ícone do
zapaterismo? Como é possível um movimento católico escolher uma frase de Maria
Zambrano – “A verdade é o alimento da vida” – como lema do Encuentro Madrid
2008? A pergunta dizia respeito a esse importante evento de presença cristã que
reuniu milhares de pessoas durante o final de semana de 4 a 6 de abril na Casa
de Campo de Madri. Na realidade, a escolha de Maria Zambrano não foi um acaso, e
diz muito sobre o tipo de presença e de concepção que quer encarnar o Encontro
organizado por diversas associações ligadas a CL.
Acolhendo os visitantes,
efetivamente, havia uma exposição de textos e audiovisuais sobre Zambrano, muito
bem organizada. Através dela, era possível compreender o amor à verdade que
sempre guiou a vida dessa mulher, a sua vocação de educadora e a sua abertura ao
Mistério. Certamente, a esquerda cultural e política apoderou-se da figura de
Zambrano, mas basta aproximar-se de suas principais obras para compreender como
estão distante dos lugares comuns intelectuais e da concepção de vida daqueles
que pretendem apropriar-se de seu pensamento. Escolhendo Maria Zambrano, o
Encontro demonstrou o seu desejo de reconhecer-se em qualquer experiência
verdadeiramente humana. E, além disso, libertou uma pensadora cristã da prisão
na qual estava confinada.
A fé encarnada em uma vida
O evento foi aberto com uma
palestra de Dom Fernando Sebastián sobre a tarefa dos católicos no momento
atual. O arcebispo emérito de Pamplona sublinhou que os católicos espanhóis não
devem deixar espaço para a inquietude depois das eleições do dia 9 de março:
“Não somos a oposição, somos a Igreja de Jesus, e nossa tarefa consiste em
testemunhar a salvação de Cristo e aproximar os homens da sua mensagem”. Isso
não significa deixar de ter consciência das coordenadas históricas que devemos
viver. Como exemplo, Dom Sebastián comentou que o PSOE (o partido “socialista
operário” de Zapatero; nde) está realizando uma verdadeira e própria
revolução cultural, e sublinhou a necessidade de os católicos se colocarem como
interlocutores culturais sérios dessa tendência.
Em relação à disposição de
ânimo que os católicos devem manter nessa missão, sustentou a necessidade de não
dar a fé por óbvia, como se fosse um dado sociológico e histórico intocável.
Além disso, acrescentou de modo provocador que “na sua história, a Espanha foi
mais católica do que o foram os espanhóis”. Hoje é normal – continuou – que as
pessoas vivam distantes de Deus e da sua Igreja, e não devemos nos impressionar
ou nos irritar com isso, mas, superando isso, ir ao encontro delas com o anúncio
de salvação de Cristo, mostrando-lhes a beleza e a verdade do cristianismo
vivido em nossas comunidades. Dom Sebastián sublinhou que, negando a grandeza de
Deus, o homem caiu em uma egolatria que devora a sua própria grandeza, que reduz
a vida e o mundo à pura mecanicidade e, por isso, pediu ao mundo católico para
não se fechar em si mesmo mas procurar ir ao encontro das pessoas mais
distantes, dos mais necessitados e mais feridos.
Além da ideologia
Outro momento central do
Encontro foi a mesa redonda sobre a construção social presidida pelo Conselheiro
pela Imigração e Cooperação da Comunidade de Madri, Javier Fernández Lasquetty,
e que teve a presença de dois convidados vindos da América Latina: Freddy
Guevara, um dos responsáveis do Movimento Estudantil venezuelano, e Marcos
Zerbini, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, do Brasil. Guevara
explicou como a resistência dos estudantes venezuelanos contra o projeto
totalitário de Chávez foi formada, a partir da afirmação da liberdade e da
dignidade de cada homem, e não de esquemas ideológicos ou de poder. Zerbini
traçou o desenvolvimento do seu Movimento, nascido da Pastoral Social da Igreja
Católica como resposta à necessidade de moradia, educação e assistência médica
de dezenas de milhares de pessoas. E descreveu também o seu itinerário pessoal,
que o levou, junto com sua mulher Cleuza, a reconhecer que o carisma de CL era o
modo de viver a fé que sempre desejaram e buscaram, exatamente em um momento em
que seu impulso original estava se exaurindo e aumentavam as recriminações e o
cansaço. Esse reconhecimento concretizou-se recentemente durante a celebração
pública na catedral de São Paulo, quando Marcos e Cleuza confiaram o seu
movimento à orientação de Julián Carrón diante de 50.000 membros.
Festa e canto
A literatura (a
impressionante introdução à leitura de Vida e Destino, de Vasilij
Grossman), a ciência (o seu relacionamento com a busca da verdade e com a
abertura ao Mistério) e a música (a exposição audiovisual sobre a história da
Ópera, concertos de Jazz e shows de rock espanhol) foram mais uma vez elementos
importantes da manifestação que, sem dúvida, não pode ser reduzida ao elenco de
mesas redondas, exposições, conferências e espetáculos que fizeram parte do
programa. O verdadeiro protagonista desse evento é o povo que lhe dá vida, que o
sustenta através de centenas de voluntários, que celebra com a festa e com o
canto a beleza de uma fé que compreende todos os aspectos do homem, retomando em
conversas apaixonantes os argumentos lançados pelas mesas de discussões. Um povo
que já engloba três gerações e que esteve particularmente presente na noite de
sábado, durante o concerto dedicado ao cantor Claudio Chieffo, falecido
recentemente.
O caminho para a verdade
O Encontro encerrou-se no
domingo com as colocações de José Mìguel Oriol, presidente das Edições Encuentro,
que comemoram 30 anos de atividades, e de Giancarlo Cesana, médico e professor
universitário, um dos líderes históricos de CL. Ambos explicaram, através do
próprio itinerário pessoal, porque o caminho para descobrir a verdade consiste
em viver uma experiência. Oriol repercorreu seu itinerário pelos movimentos
cristãos de esquerda do final dos anos sessenta, extremamente ideológicos e
separados de um relacionamento vital com a Igreja, até o reencontro com ela
através da figura de Dom Giussani: “Cristo está presente um instante antes de
todos os seus esforços”, disse-lhe o fundador de CL depois de ter escutado seu
percurso. Cesana concluiu, afirmando que a verdade é um fato afetivo, não uma
idéia. Por isso, o cristianismo não é um discurso, uma filosofia ou uma moral,
mas o acontecimento de um encontro que muda a vida, como disse Bento XVI no
início da Deus caristas est. Também por isso, a sua difusão pede a
multiplicação de eventos como esse, do qual se aproximaram com curiosidade e
desejo muitas pessoas ainda distantes da vida da Igreja.