O eu, o poder, as obras 

Luigi Giussani
Ed. Cidade Nova
São Paulo (SP) - 2001
pp. 288

Esta obra de Luigi Giussani, fruto de vários encontros com personalidades do mundo social, da política, da economia, sindicalistas e empresários, responde também a uma exigência do contexto sócio-cultural do Brasil, onde, muitas vezes, falta uma adequada reflexão sobre os fundamentos da política e do bem comum na perspectiva da Doutrina Social da Igreja.

Sua originalidade, também em relação a obras que aprofundam esta temática, está em seu ponto de partida e em seu método. Giussani não parte da análise de princípios abstratos que depois devem ser aplicados à realidade, nem tampouco de perspectivas ideológicas elaboradas a partir do poder do Estado ou do mercado; seu ponto de partida é a experiência da pessoa e da sociedade. Trata-se de uma atenção ao “eu”, em todos os seus fatores constitutivos, e ao seu desenvolvimento na forma que lhe é própria, a sociedade, onde ele pode realizar-se em toda a sua dignidade ou perder-se. (...)

Um certo poder cultural, antes que político, ataca não apenas a resposta cristã às perguntas fundamentais da vida, mas tenta destruir a própria pergunta, tenta destruir o próprio coração do homem, nivelando por baixo seus desejos de verdade e de justiça, de felicidade. Exaltam-se certos valores morais e sociais segundo as modas do momento e nega-se a possibilidade de realização da pessoa na sua verdade e no seu destino. Nega-se, de fato, a possibilidade de um destino último e pleno ao qual tende o desejo humano. No achatamento do “desejo” em tantos desejos imediatos, determinados pela máquina do consumo, reside o desnorteamento dos jovens e o cinismo dos adultos. Assim, o poder da comunicação se torna instrumento para a indução cruel de determinados desejos e para a supressão de outros. Entre estes o desejo do absoluto, da justiça, da solidariedade. (...)

Quando o “eu” não é escravo do Estado ou do instinto, mas vive inteiramente sua tendência à plenitude e à totalidade, é capaz de encontrar outras experiências e de ser criador de um justo clima de democracia. Nesta perspectiva, o texto de Giussani indica dois meios interessantes, que são o fundamento de qualquer ação política: o trabalho e as obras. (...)

A atenção à verdade do eu ao seu senso religioso cria um movimento entre os homens desejosos de mudar a sociedade e as suas estruturas, para torná-la digna morada para todos (segundo a verdadeira imagem da pessoa humana). O senso religioso impele a construir obras como resposta às necessidades concretas das pessoas e das agregações sociais. (...)

Estamos diante de uma proposta de realismo e de esperança também para a situação do Brasil, inquieta e dramática em razão de muitos fatores internos e externos. Seria um bem para todos uma sociedade guiada a valorizar as obras das pessoas e dos grupos sociais, para responder às imensas exigências de grande parte da população, segundo os princípios da solidariedade e da subsidiariedade. “Mais sociedade, menos Estado!”. Mais criação a partir de baixo, da base. Não hostilidade ao Estado, mas indicar ao Estado o horizonte último da sua atividade, que é colaborar para que o homem caminhe rumo a seu destino.

(de Filippo Santoro, do prefácio à edição brasileira)

© Fraternidade de Comunhão e Libertação para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón